
Viagem-aventura – Espanha
Que lugar há para a aventura quando se é mãe de quatro filhos? São as noites mal dormidas, as fraldas, os cuidados constantes, o tanto amor que nos distrai de tudo, isto no início, multiplicado por quatro; e é a escola, a natação, o karaté, o ballet, mais os filmes da Disney e as histórias contadas antes do sono, sempre o tanto amor que nos distrai de tudo, isto uns aninhos mais tarde; depois, é um que quer sair, outra que já é atrevida, esta que teve um acidente, aquela que tem um torneio, e o tanto amor que continua a distrair-nos de tudo, de nós, que somos mais eles do que nós. Ser mãe é estar constantemente distraída de si.
Até que um dia, por razão nenhuma, se ouve: e se fôssemos só os dois, de moto, que dizes? Uns dias por Espanha, sem rumo que nos amarre, sem filhos que nos façam esquecer de nós. Que dizes? Disse que sim, que era nessa altura ou nunca mais, pois a idade é coisa que se instala inclementemente antes de darmos por isso. Um remorsozinho por deixar os filhos com os avós, quatro é coisa de monta. Mas a Honda, robusta, desafiadora, audaz, desejosa de nos levar a conhecer o que houvesse em Espanha para se conhecer, fez o remorçozinho minguar, retroceder para um lugar escuso da alma, longe das estradas que se estendiam por Espanha. A Honda falava de liberdade, de espaços abertos, de dias longos, de noites cúmplices, dum mar ainda desconhecido, de cidades e de pequenos povoados, do que viesse. A Honda sussurrava sortilegamente aventura.
Não se predefiniu um caminho, que as aventuras requerem surpresa renovada a cada passo. De Lisboa a Castelo Branco e daí a Espanha foi apenas a preparação para a aventura, que estava toda em Espanha. Transpor o letreiro com a palavra Espanha foi entrar no mundo da aventura – da mais completa e íntegra aventura, pois não tinha porquê nem como; estava desgarrada de expectativas que não fossem vivê-la, sorvê-la ávida e inteiramente, ao sabor do que nos trouxesse cada madrugada, cada pô-do-sol, cada noite longa ou breve.
Como não se definiu um trajeto, não o recordo com a exatidão do mapa. Recordo, porém, que o primeiro lugar onde pousamos foi Sevilha, na Andaluzia, lugar este que nos falou de tempos tão longínquos como presentes, de homens e de mulheres que, vindos do Norte de África, ali firmaram a sua cultura e a sua arte, ainda disponíveis para deleite dos nossos olhos. Arcos como debruados a renda, azulejos com padrões deliciosamente intrincados, lagos junto aos quais os amantes se terão sentado, em tempos idos, tudo isto sorvemos em Alcázar, e mais, aqui e ali, pelas ruas da cidade. Quente, muito quente, mas também de encantar. Culinária deliciosa. Como “recuerdo”, comprámos um cavalo de bronze, imponente como a Honda. Dormimos nalguma pousada barata, e a Honda requereu, novamente, a estrada.
Seguimos para Sul; a Honda, alegremente harmonizada com a estrada, levou-nos a ver o litoral, esse magnífico Mediterrâneo onde Ulisses navegou. Em Torremolinos, as ruas estreitas ofereciam comida típica; as lojas, aliciantes “recuerdos”. Os ares, sempre amornecidos, diziam aos sentidos que se satisfizessem. Mas não nos demorámos no turbilhão que é a cidade em época estival, saímos da estrada principal, corremos povoados de cujo nome me deslembrei, não do sabor inteiro da aventura. Uma noite não encontrámos pouso – dormimos num pardieiro a troco de uns poucos euros, só porque a dona do mesmo considerou, creio, que não a roubaríamos.
A Honda rumou para norte, levou-nos nos a Toledo, cujas muralhas são merecedoras da fama que têm, pois entrar pelas portas da cidade, tão justamente renomadas quanto as suas muralhas, é retroceder no tempo. Caminhar nas ruas aninhadas entre casas de pedra nua é aventurar-se no que foi a Idade Média, e essa era de lutas pela terra, mãe de tantos inícios, fica como à distância de uma mão que toca nas pedras das casas ainda intactas. E sentar-se nas muralhas, avistando largamente a terra, já imprecisa ante um ocaso de esplendor, é saber da imensidade da vida que houve antes de nós. É sentir-se pequeno ante o tempo e enorme pela comunhão com o passado.
De Toledo a Salamanca, foi a estrada, a aventura dos cabelos ao vento e do Sol a roçar a pele. Entrámos em Vilar Formoso, seguimos para Lisboa, daí para S. Miguel, de avião, a Honda também, mas de barco – os três revigorados, que a aventura concede pujança. E deixa histórias para contar. Havia de as contar aos meus filhos, que, durante esses dias, não me distraíram de mim.
Paula de Sousa Lima, escritora vive na ilha de São Miguel, Açores
Agradecemos à escritora Paula de Sousa Lima por autorizar que estes deliciosos textos sejam publicados nesta plataforma de artes e letras da Bruma Publications, parte do instituto PBBI da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno. Estes textos serão publicados nesta plataforma em portugês, e posteriormente republicados também aqui em tradução.
Textos originalmente publicados no jornal Ilha Maior da Ilha do Pico, Manuel Tomás, director.
