Trinta Luas para o Álamo

Cada dia, uma página. Cada página, uma lua. Cada lua, o Álamo.

Este texto foi-nos facultado pela Profa. Doutora Manuela Marujo.

A MULHER EM “JÁ NÃO GOSTO DE CHOCOLATES”
Álamo Oliveira

Em Já Não Gosto de Chocolates’ – um texto de ficção narrativa que aborda a emigração açoriana (a da ilha Terceira) para o Estado da Califórnia nas décadas de 50 e de 60 -, as mulheres adquirem, no desenvolvimento da trama romanesca, um peso significativo. A sua inserção na sociedade dos meios rurais californianos, a par da inevitável aculturação, não se fez sem a ocorrência de conflitos sócio culturais notáveis. A educação trazida da ilha parece ter ficado reduzida a meras referências de cariz folclórico, sem que isso signifique uma inserção equilibrada na sociedade norte-americana.

Como é do conhecimento de todos, a ficção narrativa universal está repleta de retratos de mulheres que refletem a sua importância sociocultural, mesmo que sob os inevitáveis contextos históricos e, sobretudo, de classes. Se, em muitas das obras produzidas e tendo em consideração estilos de escrita epocais, a mulher aparece dotada de alguma menoridade e subserviência perante machismos cultivados por comportamentos obscuros, noutras – muitas delas escritas no feminino -, a mulher é relevada à igualdade de oportunidades, situando-a, através da exposição de conflitos conhecidos, no lugar que, naturalmente, lhe cabe.

Em Já não gosto de chocolates, e de forma que o autor considera inadvertida, as mulheres acabam por ter o peso mais significativo no desenvolvimento da trama narrativa – cada uma à sua maneira, é certo -, mas cada uma podendo ser o protótipo de inserções e de assimilações ditadas por uma realidade nova, que colide, frontalmente, com valores e princípios que, até então, pareciam intocáveis. Este conflito resulta da situação a que as mulheres de “Já não gosto de chocolates” estão sujeitas: serem naturais dos Açores (ilha Terceira) e de emigrarem com idades diferentes para os Estados Unidos da América (estado da Califórnia). O choque de civilizações era inevitável.
Quando nas décadas de 50 e de 60, a emigração, a partir dos Açores, se tornou hemorrágica, a mulher terceirense exercia funções especificamente domésticas. Eram raras as professoras, médicas, as funcionárias públicas e estas sempre nascidas na cidade. Aliás, a emigração encheu-se de gente da área rural e, aí, a situação da mulher era diferente.

Como era diferente da situação das mulheres das outras ilhas, nomeadamente das de S Miguel, Pico e S. Jorge. Esta referência importa ser feita para um melhor entendimento das mulheres que figuram em “Já não gosto de chocolates”.

Na Terceira, a mulher rural ocupava-se, enquanto esposa, a procriar, a limpar a casa, a lavar e passar roupa a tecer, a bordar e fazer renda, tarefas que tinha por obrigação ensinar às filhas. Só em caso de excesso de trabalho e por falta de mão-de-obra masculina, ela dava uma ajuda nos trabalhos de campo, concretamente na apanha da batata, do milho, da uva. Homem que se prezasse não sujeitava as suas fêmeas a tarefas que implicavam esforço de macho ou a sofrer as consequências do frio e do calor. Até porque bordar e fazer renda eram tarefas remuneradas (mal remuneradas) e poupava-se dinheiro cozinhando, lavando, tecendo, com recursos próprios.

Noutras ilhas dos Açores, a mulher não seria tanto poupada. Dizia-se mesmo que a mulher terceirense era fidalguinha pobre, restando-lhe o proveito da fidalguia, mas não evitando que as mulheres das outras ilhas fossem pobres também. O que é curioso, é que, apesar desta espécie de clausura doméstica, a mulher terceirense estava longe de ser bicho de buraco. A sua vida social era bastante aberta. Sabemo-la nas festas do Espírito Santo, nas do Carnaval, nas touradas e, sobretudo, participando em tarefas coletivas como desfolhadas, vindimas, serões de fiar e na preparação de actos sociais (casamentos, funerais, batizados, etc.).

Ao emigrar para a América do Norte, a mulher terceirense confrontou-se com outra realidade social, económica e cultural e, daí, que tivesse de mudar a sua mentalidade e o seu comportamento. Isso de ser apenas doméstica já não dava pão. O machismo familiar diluía-se depressa na necessidade de entrar mais um cheque em casa. A mulher que bordava e fazia renda no canto do estrado, que lavava roupa nas pias do chafariz público, que amassava e cozia pão no forno da casa, tinha que levantar-se cedo e ir até á fábrica, até aos lugares de faxina e, aí, entrava, durante oito horas, no esquema de produção, sem que o facto de ser mulher fosse motivo de desculpa para uma eventual baixa de rendimento.

Nesta nova realidade, a mulher terceirense tinha que adaptar-se e aculturar-se, desfazendo-se de alguns valores, alguns tidos como preconceitos, para optar por outros que, não raras vezes, se situavam nos antípodas dos primeiros. Eram frequentes os casos de desorientação, casos que perturbavam não só o agregado familiar como a própria comunidade. O itinerário que é dado a cada uma das mulheres de “Já não gosto de chocolates”, procura deixar visível, mesmo que de forma condensada e metafórica, essas transformações de mentalidade e de comportamento. (Refira-se, porém, que, atualmente, essas transformações não têm leitura significativa por parte de quem permanece nos Açores. Isto é: a evolução social, económica e cultural dos açorianos apagou, por completo, o conceito de feminismo das décadas de 50 e de 60. Como noutros lugares do mundo, a mulher açoriana executa todas as profissões, coloca os filhos nas creches e os idosos nos asilos, casa, divorcia-se e exige divisão das tarefas domésticas com todos os elementos do agregado familiar).

As mulheres de “Já não gosto de chocolates” pertencem, assim, a um tempo e a um espaço antropológicos. Já não existem. E, se existem, estão, com certeza, situadas em reservas de pouca duração.

Quando José da Silva resolveu emigrar para a Califórnia, trouxe consigo três mulheres e dois homens. Fixaram-se na área rural do vale de San Joaquim. Em termos profissionais, o choque não foi demolidor. Se não fosse o homossexualismo do seu benjamim, José da Silva não teria tido problemas de maior com os filhos machos. O passivismo de António, perante a autoridade de Maria de Lurdes – sua mulher por casamento católico -, não o atormentou demasiado cedo e os netos garantiram-lhe a virilidade do filho.

Piores, segundo a óptica conservadora do homem terceirense da altura, foram os comportamentos das mulheres – comportamentos, afinal, adivinháveis se reparassem nas fotografias que iam da América para as ilhas: maquilhagens fortes, vestidos com decotes generosos e sem mangas, o uso de shorts e nas peças de roupa que recebiam nas sacas de encomendas. Nas ilhas, nenhum desses trajes seria permitido: os decotes e as mangas seriam emendados com bocados de tecido retirados do forro ou da roda da saia: os shorts dariam, na melhor das hipóteses, umas cuecas.
 

Em Já não gosto de chocolates, Maria/Mary continua a ser, na sua qualidade de esposa e de mãe, uma mulher da ilha. Mas não deixa de estar atenta às alterações de comportamento dos filhos. Procura mesmo engolir os sapos vivos dos preconceitos com um estoicismo enformado por muitos afetos. Será mesmo a mulher maiúscula da história, apesar de evitar fazer ondas, utilizando toda a sua capacidade conciliatória. No seu final dramático, é-lhe grata a presença do seu benjamim, aquele que, assumindo a diferença sexual, melhor soube administrar a sua capacidade de amar. Maria/Mary é, assim, igual a tantas outras mulheres que saíram da ilha e que, conduzidas pelo instinto e pelo afeto, foram capazes de retirar do naufrágio moral e social aqueles que, por princípio, poderiam aguentar melhor o choque sociocultural da América.
E quase se poderia dizer o mesmo da filha Lúcia/Lucy. Só que esta preferiu escudar-se no cinzentismo de uma vida que a fez estagnar no tempo, transferindo para o dinheiro a sua paixão mais realizável. Ficou condenada a diluir-se na comunidade sem deixar rasto nem nome. Os seus filhos, porém, não lhe colheram o exemplo. No dia a seguir à apresentação de “Já não gosto de chocolates”, na cidade de Tulare, uma conterrânea desabafou: “Não dormi. Li o livro todo. A minha raiva é porque me identifico com a Lucy e não sei se tenho tempo para mudar”

Margarida/Maggie tem a dimensão da rebeldia. Cultivou-a quanto pôde. O seu horror ao anquilosamento e à estagnação levou-a a enfrentar todas as barreiras, até desafiar o próprio abismo. É a única que procura integrar-se no espírito da mulher americana, sem conhecer como, mas ultrapassando o que vigorava na comunidade lusa. Será apelidada de prostituta porque não aceitou a passividade e a hipocrisia das outras. Teve coragem para desenvolver a sua capacidade de amar e também o seu sentido de justiça. Por isso, foi capaz de evitar situações de ridículo e de puro preconceito. Desprendeu-se de amarras à custa de uma lógica linear, cometendo erros, mas nunca repetindo o mesmo erro, tocando uma sabedoria de vida mais condicente com o tempo e o lugar em que viveu.

A quarta mulher do livro é espúria. Vem da ilha, de propósito, para casar com António/Tony. E, nela, tudo parecia certo. É filha de gente pobre, trabalhadora, honesta. Mas, ao aceitar casar com António/Tony ela impôs um preço. Maria de Lurdes/Milu não quer ser, simplesmente, a mulher de um vaqueiro. A sua ambição conduziu-a ao uso de estratégias exemplares. Tornou-se notada e notável, mesmo que, para tanto, tivesse que recorrer a processos poucos ortodoxos. Sem cair em dislates sociais, acabou por sucumbir perante a adversidade de um filho mongolóide, que lhe retirou toda a vontade de sobressair perante a comunidade. Lurdes/Milu não é animada da mesma coragem de Margarida/Maggie. A geografia da sua vaidade ficou confinada ao espaço da comunidade.

Uma quinta figura feminina surge também, neste livro, com peso significativo: Rosemary, nascida numa cidade mexicana fronteiriça com os Estados Unidos. Casou com um idoso americano, com objetivo preconcebido de passar-se para a Califórnia. O casamento deu-lhe o passaporte e uma pequena herança, que foi aproveitada para tirar o curso de geriatria. Foi ela a destacada para tratar de Joe Sylvia enquanto utente do Lar de idosos. Para além de profissional exemplar, Rosemay revelou ser dona de um grande coração, criando cumplicidades de afeto que ora tocavam de filha para pai ou de mãe para filho, ora os de esposa para marido. Na indefinição das fronteiras desta relação, ficam patentes as qualidades de uma mulher que soube usar o coração na dádiva da solidariedade, não da especificamente feminina, mas daquela que todo o ser humano deve desenvolver. Importa também deixar explícito que a exemplaridade de Rosemary não resulta do facto de ser mexicana, mas sim, da forma como desenvolveu o seu potencial afetivo.

Em “Já não gosto de chocolates”, só aparentemente a mulher tem um lugar subserviente.
A sua importância, apesar das situações de resignação que se referiram, é ganha exatamente pela sua capacidade de enfrentar e afrontar um quotidiano, que não desdenharia empurrá-la para um estado de menoridade social. E isto não só pela sua educação de origem, mas também porque o meio onde se inseriu é demasiado híbrido a todos os níveis.

No fundo, todos parecem carregar um sentimento de culpa pelo seu entendimento e uso da liberdade. Isto é: cada um usa a liberdade em proveito próprio, ressentindo-se que outros a utilizem também, sobretudo, quando de forma mais autêntica e assumida. É uma espécie de inveja que, afinal, vem revelar que ser homem ou mulher é mesmo só uma questão de sexo. Todos parecem estar suieitos às mesmas fronteiras sociais, económicas e culturais. ” A Vez e a Voz” da mulher de há muito que é um dado adquirido, mesmo quando essa vez e essa voz necessitam de lutar por visibilidade para serem reconhecidas. Em “Já não gosto de chocolates”, isso acontece também com os homens, desde o patriarca Joe Sylvia, passando pelo passivismo machista de Tony e pelo oportunismo de Alfredo, até John com o ferrete da sua diferença sexual. Por isso, é sobre Joe Sylvia que o livro remata: Vivera sob o signo supérfluo do imediato, fazendo com o corpo o que lhe negava o coração. Sempre tivera mais deveres do que direitos. Escapulira da ilha onde lhe faltara pão e voz. Na América, procurava a liberdade mais hirta do mundo, consagrada numa estátua de betão. A sua angústia maior foi reconhecer que mil vezes se perdeu enquanto vivo, e outras tantas enquanto morto. E esse medo transformou-se na sua mais-que-perfeita-solidão.

É desta solidão que a vez e a voz devem fugir. O direito à felicidade não tem sexo.

Texto publicado em The Voice and Choice of Portuguese Immigrant Women/A vez e a Voz da Mulher Imigrante Portuguesa – Editors/Organizadoras Manuela Marujo, Ainda Baptista, Rosana Barbosa

Edição University of Toronto, 2005 Friends of Portuguese Studies, Toronto, Canada, 2005

Já não gosto de chocolates de Álamo de Oliveira, Edições Salamandar, 1999

Agradecemos à nossa amiga a Professora Doutora Manuela Marujo por nos facultar este magnífico texto do poeta Álamo Oliveira.

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