Cada dia, uma página. Cada página, uma lua. Cada lua, o Álamo.

Álamo, a letra da nossa gente
Miguel Sousa Azevedo
DO PORTO DAS PIPAS… (319)
Nesta quarta feira, o nosso “DI” publicou uma muito concisa entrevista com Álamo Oliveira, escritor, poeta e dramaturgo terceirense, em tempo de comemorar 75 anos de vida, que completou no início do mês passado. O diálogo entre o artista e a jornalista Helena Fagundes quase resume todas aquelas décadas de criação literária. Tendo o
condão de, sem fazer citações, despertar a curiosidade para a sua escrita. E entrevistar também é isso.
Dono de um sentido orientador muito puro entre a ruralidade e o urbano, que foi temperando com uma riqueza de sentimentos que, de forma magistral, passou ao papel, Álamo Oliveira será o autor que mais influenciou as gerações recentes destas terras. De forma brilhante e subliminar, o que considero a maior recompensa para quem escreve.
A sua obra mostra-se transversal ao nosso sentir, mesmo se há uma presente contemporaneidade no que escreve. Esse é outro elogio para os autores. Serem intemporais. E o Álamo consegue-o num poema, numa rima de festa, num parágrafo solto de um livro ou no contexto político de uma peça de Teatro. Ficar-lhe indiferente é uma imensa dificuldade.
No fundo, teve uma infância e uma juventude igual à de centenas e centenas de açorianos, mas que a veia criativa permitiu ler de uma outra maneira. Guardou memórias e sabores, que soube transcrever com um paladar que agrada. Confesso que invejo – num sentido positivo – quem tem a capacidade de eternizar as suas vivências e o ar que as rodeia. Ainda mais com palavras, vírgulas e pontos, por entre as quais passeamos com prazer.
Não estarei a exagerar se, em tempos de São João, considerar que o Álamo escreveu a letra da nossa gente. Apontando talvez a sua faceta mais popular, e que mais rapidamente todos identificam. Ou vão passar a identificar. Falo dos imensos poemas que criou para as marchas e similares que nos alegram os dias. E que, nesta altura manchada de pandemia, recordamos com ainda mais saudade.
É lícito dizer que Álamo Oliveira deu voz à alegria deste povo, rimando aromas e sentimentos, que se eternizam a cada madrugada festiva dançada com o Santo padroeiro daquele reboliço que nos caracteriza. Atribuiu novos sentidos a várias expressões, recriando-as de um modo natural. E só os grandes fazem isso. Há quase 25 anos, após um animado jantar que encerrava um concurso literário – ainda existem, nos Açores? -, no qual o autor partilhava as vezes de júri com o ator Belarmino Ramos e a saudosa professora Luísa de Ávila, agradeci-lhe o gosto de já ter marchado as suas letras em temas que não têm data. Foi um agradecimento tonto, como tontos ficamos sempre que a vida nos sabe inebriar por boas razões. E poder viver a criação literária de Álamo Oliveira é uma delas.
Parabéns e – novamente – obrigado.
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