
O Mar. Emudece uma pessoa em palavras e em vida própria por causa dele. Numa ilha é ele o centro originário de cada dia. É ele que dita as leis com que todos se cobrem. Não há quem lhe ignore o despotismo e o poder por causa da solidão que dele emana.
Que ninguém lhe estranhe descomportamentos em relação aos calendários e às promessas anunciadas pela natureza. O Mar continuará num ritmo e tempo só dele a enredar-se na lentidão de redemoinhosos vagares, as pessoas vivendo e falando de forma arrastada sem ousar resistir aos tentáculos da nostalgia.
De que mal sofrerá o Mar?, perguntarão os que são apanhados por estes tentáculos, obrigando-se a uma pausa e ao escrutínio direto das águas. Não se podendo dizer que esta fosse uma interrogação de abrangência coletiva, incluindo ela apenas os naturais da ilha e seus vizinhos, já que os americanos que ocupavam a base das Lajes não se davam a tal trabalho, pois que não lhe conhecendo os efeitos não lhe imputavam responsabilidades.
De que mal sofrerá este Mar não parecia, pois, ser pergunta que alguma vez tivesse sido feita pelos americanos ao Mar da Terceira. O que talvez não fosse de espantar vivendo eles como viviam em órbita à parte, sob a proteção do escudo brilhante da prosperidade de onde ditavam as suas leis e se bastavam a si próprios sem terem de se submeter às leis de nenhum outro deus, mesmo que esse deus fosse o Mar açoriano.
Passeavam a sua ingenuidade rosada em carros de uma grandeza luzidia a que os entendidos chamavam de espadas, assentando-lhes como uma luva a displicência com que traziam a farda que em certos dias alternavam com a curiosidade de espalharem por todos os recantos da ilha os seus muitos Oh, Ye oh ye, Okay okay em ininterrupta mastigação das pastilhas elásticas que às vezes também gostavam de partilhar com as crianças. Gama era como se chamava esta pastilha, aportuguesamento da americaníssima expressão chewing gum. A era da gama viveu-se na Terceira sob o patrocínio dos americanos da base que, Deus os guarde, institucionalizaram tal hábito. Era uma softeza de movimentos bucais, um ritmo vicioso e imparável a que não sabiam resistir principalmente as crianças, as iniciadas. Nesse tempo, irão por isso algumas delas subtrair aos pais alguns centavos ou escudos para poderem comprar as ditas, tudo às escondidas que os tempos não eram de larguezas, larguezas mesmo só para os americanos que até quando emigravam da sua terra viviam como reis na terra dos outros. E podiam distribuir à vontade os brinquedos e os chocolates que todos os Natais faziam sonhar as crianças da ilha a viver do reflexo de assombro das pratas que os embrulhavam e que elas guardavam depois religiosamente entre as páginas de algum livro ou aproveitavam para confecionar as bolas com que se alindava a árvore de Natal.
Pessoas detentoras de tais benesses, capazes de iluminar assim o pequeno mundo terceirense, era de supor que não se deviam dar ao trabalho de formular perguntas tipo De que mal sofrerá o Mar, está mais que visto. Dava a impressão de pairarem muito acima destas metafísicas caseiras, trazendo a alma satisfeita e em paz. Depois havia ainda a barriguinha a merecer-lhes muitos e variados desvelos. Nas longas tardes de verão ou à noite quando os dias eram curtos, era vê-los pelos restaurantes da Praia da Vitória e alguns de Angra dispersos em grupos animados, às vezes já em cozimento de bebedeira, em alegres comezainas de repastos infindáveis.
Que metafísica poderia resistir a semelhante euforia gustativa, diremos nós amplamente compreensivos e esclarecidos, que metafísica resistiria àquela variedade de vinhos e de paladares? Uma pessoa só de os ver em tais transes ficava com a alma mais leve, sem vontade nenhuma para interrogações que não fossem as de devassar a natureza destas criaturas com quem partilhava a ilha.
Pareciam inofensivas, extremamente pueris, o riso acendendo-se-lhes diante das coisas mais incríveis, principalmente depois de alguns copos, isso era evidente, mas sempre propensos a um trato fácil e amigável, lembremo-nos das lembranças que continuamente gostavam de distribuir às crianças, até esporadicamente junto com alguns dólares, parecendo que a tal satisfação de alma se alimentava destes gestos e destas atitudes.
Tinham sorte, os americanos. Não só por terem nascido na terra em que nasceram, como também por não serem dados a nostalgias e só gostarem do fado como distração ocasional e não como necessidade de alma. Pois, a alma. E de novo a nossa nos voltava a pesar, capaz de se conjeturar acerca do sofrimento e da sem-cerimónia com que ele se projetava em nós.
Maria Luísa Soares é escritora açoriana com uma vasta obra publciada em poesia, romance, contos e crónicas.
