
A publicação da coletânea Contos Populares Portugueses da Califórnia, recolhidos e transcritos por Manuel da Costa Fontes e classificados por Isabel Cardigos e Paulo Correia, é um feito editorial e cultural de grande relevância para a comunidade luso-americana. Trata-se de um trabalho de décadas que resulta não só num repositório literário, mas também num poderoso instrumento de reconstrução da identidade cultural da diáspora açoriana. Este livro, o primeiro que foi publicado pela Bruma Publications do instituto Português Além-Fronteiras (PBBI) da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno, mostra-nos, claramente, a importância de resgatar e arquivar contos orais, dando ênfase em algumas histórias da coletânea, nas notas introdutórias do autor sobre a presença portuguesa na Califórnia e no valor das introduções em inglês para leitores da diáspora. Na minha modesta opinião de, como escreveu Eugénio de Andrade: inábil aprendiz da vida, esse tipo de publicação permite às novas gerações de acor-descendentes aceder à sua ancestralidade sem as pressões do folclorismo, que infelizmente abundam em todos os centros e cantos da diáspora.
A coletânea e o contexto da imigração açoriana na Califórnia
A introdução escrita pelo distinto Professor Manuel Costa Fontes lança luz sobre o percurso histórico dos portugueses na Califórnia, especialmente os oriundos dos Açores. Desde os primeiros baleeiros recrutados na Horta até aos poderosos produtores de leite do Vale de San Joaquim, a narrativa apresentada pelo autor é rica em detalhes e revela a importância da comunidade açoriana na construção da economia californiana. A frase “terra, quanto mais, melhor” expressa o espírito de perseverança que marcou a trajetória dos imigrantes açorianos na agricultura e na indústria leiteira.
Este contexto ajuda-nos a compreender as razões dos contos recolhidos serem tão diversos e fascinantes: refletem um povo que navegou entre mundos, que preservou tradições mesmo em terras distantes, e que usou a oralidade como forma de resistência e sobrevivência.
A riqueza dos contos: estrutura, temas e diversidade
A coletânea é composta por 86 contos divididos em categorias como contos de animais, contos maravilhosos, contos religiosos, contos jocosos e contos formulísticos. Essa organização não é meramente técnica, mas espelha a própria diversidade da experiência cultural açoriana, que sempre soube integrar o sagrado e o profano, o mágico e o quotidiano, o riso e a lição moral.
Um exemplo emblemático é o conto “A Rosa e o Urso”, um conto maravilhoso onde o urso encantado desempenha o papel de ajudante mágico. A jovem protagonista é raptada e levada para a floresta, onde o urso a protege e a guia, revelando-se no final como um príncipe encantado. Trata-se de um conto de transformação e de amadurecimento feminino, pleno de imagens simbólicas, como a floresta — espaço do desconhecido e da iniciação — e o urso — figura ambígua de ameaça e salvação.
Outro conto de grande interesse é “O João da Vaquinha”, pertencente à tradição dos “tolos astutos”. João, um rapaz aparentemente ingénuo, acaba por enganar uma série de personagens através da lógica do absurdo e da repetição. O humor aqui é uma arma contra a autoridade e a ordem estabelecida — um traço típico da cultura popular que ironiza o poder, subverte normas e favorece o mais frágil. Este tipo de conto não apenas diverte, mas também educa: ensina a questionar, a observar e a agir com astúcia.
Na vertente mais ousada da coletânea encontramos contos como “A Rapariga que Tinha Comichão nos Peitos” e “O Conto do Cagalhão”, que evidenciam um imaginário popular desinibido, corporal, e profundamente ligado à oralidade do povo. Esses contos, apesar do seu humor escatológico, revelam uma liberdade criativa que resiste ao moralismo e ao puritanismo moderno. Neste contexto, o riso é uma forma de catarse e afirmação da humanidade comum.
Também se destacam os contos religiosos, como “O Sapateiro Pobre”, onde o protagonista, ajudado por São José disfarçado, é recompensado pela sua fé e bondade. A lição moral é clara: a virtude é premiada, mesmo que o caminho da vida pareça injusto. Mas é interessante notar que, mesmo nestes contos religiosos, há uma dimensão popular de subversão: Deus e os santos aparecem como figuras próximas, humanas, que participam no quotidiano do povo.
Introduções em inglês: mediação cultural e intergeracional
Uma das grandes inovações da obra é a presença, antes de cada conto, de uma introdução em inglês. Estas notas servem como guia para leitores menos familiarizados com a língua portuguesa ou com os códigos narrativos tradicionais. No caso da diáspora açoriana, em que muitos jovens, e açor-descendentes de idade mais avançada, netos e bisnetos de emigrantes, já não falam português fluentemente (ou mesmo os que falam algum português, mas não conseguem ler), estas introduções funcionam como uma ponte linguística e afetiva para o conteúdo do conto.
Por exemplo, antes do conto “A Brancaflor”, a introdução explica a origem do conto no imaginário ibérico e sua ligação com temas universais como a fidelidade, o amor e o sacrifício, permitindo ao leitor entender o contexto simbólico da história e apreciar a sua riqueza sem se sentir excluído pela língua ou pelas referências culturais. Este gesto editorial representa uma abertura à comunidade, um reconhecimento de que a língua materna pode ser um obstáculo, mas que não precisa ser uma barreira. Reforça o papel dos contos como instrumento de reconexão com a herança cultural — não através de imposições ou cerimónias formais, mas através da leitura livre e individual, de cada uma na privacidade da sua casa, sem poma e circunstância como a cultura deve ser vivida.
A leitura como espaço de descoberta e pertença
Ao contrário do folclorismo tradicional, muitas vezes centrado nas exibições públicas e no espetáculo, a leitura permite uma experiência íntima e interiorizada. Para os jovens da diáspora, significa poder conhecer e reinterpretar as suas raízes sem as pressões de estar “à vista”, de usar trajes típicos ou de participar em festas com as quais nem sempre se identificam. Ler um conto como “O Touro Azul”, por exemplo, pode despertar imagens e sensações que ligam o leitor ao mundo rural, à vida nas ilhas, à linguagem e ao humor dos seus avós. É uma forma de pertencer que não exige exibição, apenas leitura, contemplação e imaginação. Ao mergulhar nestas histórias, o leitor açor-descendente pode encontrar respostas para questões identitárias extremamente profundas — quem sou, de onde venho, o que significa ser açoriano.
Um legado recuperado e um futuro aberto
A obra Contos Populares Portugueses da Califórnia é, acima de tudo, uma celebração da cultura oral açoriana e da sua sobrevivência no seio da diáspora californiana. Ao recolher, transcrever, classificar e apresentar estes contos, o distinto catedrático, Professor Manuel da Costa Fontes e a equipa com a qual trabalhou, presta um serviço inestimável à memória coletiva dos portugueses, e em particular dos que emigraram ou têm raízes nos Açores e vivem nos Estados Unidos.
Estes contos não são apenas relíquias do passado, mas ferramentas para o futuro. São sementes que podem germinar em novos leitores, escritores, artistas e investigadores. São convites à escuta, à curiosidade, à empatia. E, acima de tudo, são uma forma extremamente poderosa de dizer às novas gerações que pertencem a uma história rica, diversa, divertida e profunda — uma história que agora está ao vosso alcance, página por página, palavra por palavra.
Texto publicado no Atlântuico Expresso de Ponta Delgada e Diário Insular de Angra do Heroísmo.
Podem comprar o livro nos Açores através da Letras Lavadasm incluindo na loja online da LL em qualquer parte da União Europeia, assim como na livraria Lar-Doce-Livro em Angra do Heroísmo. Aqui nos EUA e no Canadá podem comprar através da Bruma Publications.

