O VULCÃO da Serreta por Maria Luísa Soares

                                               

       Até hoje nunca ninguém soube até onde vai a capacidade de improviso de um vulcão.
     Mas se quisermos acompanhar a existência deste, que dá pelo nome de Vulcão da Serreta, é só ouvi-lo:

  Tudo começou em dia de neblina e nevoeiro cerrado de um dezembro húmido, por sinal bastante semelhante ao de hoje.
  O Vulcão escondido que eu por muitos milénios fui, começou a cansar-se de o ser, a crescer em magma e força incontrolada, em desejos de um aflorar glorioso por sobre a crista das ondas. Um finalmente assumir-se com identidade própria, aos olhos de todos. Hoje ainda penso que ninguém poderá negar-me a legitimidade honesta de tais desígnios. Mas destes precoces sinais que precederam a minha existência, não direi que se manifestaram repentinamente. Antes, uma gradativa irrequietude, uma lenta e persistente determinação alimentou esse fogo incandescente, mais tarde cuspido pelo cume do Vulcão em que me tornei.
    Durante esse tempo e quando me tornei num irremediável fenómeno de popularidade, tive a pretensão de, à medida que me ia apropriando cada vez mais da superfície das águas, me apropriar igualmente do coração das pessoas. Julguei poder controlar emoções, pactuar com agastamentos e desconfianças, entrar no jogo recíproco dos sentimentos. Inútil e vã fatuidade. Uma Pessoa há-de ser sempre uma Pessoa, um Vulcão sempre um Vulcão. Hão-de sempre esbarrar as pessoas em coisas da mais elementar simplicidade e soçobrar no aparato das emoções medrosas e pouco esclarecidas,
     Gostaria de explicar às pessoas que quando elas dão fé dos ruídos roucos e profundos que podem acompanhar o nascer de um vulcão, uma ilha ou de uma simples convulsão telúrica, saibam que todos esses ruídos que tanto as assustam e nos quais elas veem prenúncios de desgraça, mais não são do que o resultado do nosso respirar, convenhamos mais próximo do resfolgar e do roncar, mas que é apenas um efeito de som. Sim, é isso, um efeito de som muito especial, aumentado em eco e ressonância nas paredes da gruta que nos contém. Gostaria de lhes dizer ainda que aqueles não são sinais de fim de mundo e sim de começo de outros. Mas talvez seja pedir-lhes demais.
E eu que gostaria tanto de chegar a Ilha, ser Ilha como as que vejo à minha volta. Será que este sonho irá algum dia concretizar-se?
    
          Não nos espantemos por um vulcão também sonhar. “O sonho comanda a vida” (das pessoas e dos vulcões).
          Mas e das Pessoas: o que se poderá dizer delas? Proponho que lhes acompanhemos as diversas fases do espanto assustado, do interesse e da expetativa suscitada pelo aparecimento deste Vulcão:

      Os pescadores foram as primeiras pessoas a alertar para o que tinham visto à superfície das águas: uns fumos esquisitos que logo pareciam desfazer-se como vitamina C efervescente, a temperatura das águas que não tinha a friura do habitual e a fumarola que de longe lhes tinha chamado a atenção e que provinha de bocados de rocha, cuspidos das profundezas do mar, morrendo-lhes o ímpeto ali à superfície em flutuação aquietada. Aquietados é que não ficaram estes homens do mar, já muito curtidos nos mais variados espantos, sendo este um espanto diferente de todos os outros por eles vividos até ali.
     Este alarme dos pescadores acendeu o rastilho da curiosidade por toda a Ilha. De um dia para o outro centraram-se todos os olhos no mar da Serreta, precisamente a dez quilómetros do seu farol, uma zona até ali considerada de grande riqueza piscatória. Chegavam aos magotes pessoas de binóculos em punho que se punham a devassar o horizonte. À noite era até um diversão agradável ver aquelas incandescências alaranjadas a saltitar sobre o mar, transformado em palco de um não encomendado fogo-de-artifício. E, claro, surgiam também helicópteros com investigadores da Universidade dos Açores, junto com barcos de pescadores que ajudavam naquele desvendar de mistério. Que muito em breve deixou de o ser, acabando todos por se confrontar em conclusão mais que óbvia: só podia ser uma erupção submarina, Mais uma.
       Sabe toda a gente, isto é, sabem os ilhéus, que existem cerca de duas dezenas de vulcões ativos nos grupos oriental e central do arquipélago. Sabe-se que eles lá estão na companhia das algas e das baleias sem fazer alardes de maior e comportando-se atiladamente lá em baixo, até um dia. Sabe-se. Mas não se anda sempre a matutar nisso. Há tanto mais em que pensar que era o que faltava lembrar-se alguém que os vulcões que existem por aí estão na iminência de, mais dia menos dia, acordarem e virem periclitar a vida de cada um. E eis que, mesmo sem se pensar nisso, há um, perto da costa da Serreta, que resolve acordar após sabe-se lá quanto tempo de existência resguardada, passando dos quinhentos metros de profundidade para os setenta, que era quanto o separa da superfície na atual crise de espanto assustado
       Nada a fazer quando um Vulcão quer mesmo conquistar notoriedades. Sabe-se lá do que é capaz. Por enquanto são aqueles espetáculos de vapores e de material incandescente a passear-se ora pela beira da Serreta, ora alargando-se até à costa das Doze Ribeiras e de S. Mateus, por aí se ficando como que indeciso. Resta às pessoas ir vivendo os dias acompanhando-lhe os improvisos.
     Para já, o que se pode apurar naquela fase dos acontecimentos é que o Vulcão da Terceira começou a receber tratos de um interesse muito próximo do carinho, se por carinho entendermos o espiar-lhe a s intenções e os movimentos, perguntando-se todos os terceirenses ao acordar pela boa ou má disposição do seu Vulcão, como se de um ser vivo se tratasse: Como estará o nosso Vulcão hoje? Mais indisposto ao que dizem, compadre, parece que há mais pedra fumegante a sair da água, Diacho, ninguém sabe o que vai sair dali, Desde que não mexa com a gente cá em terra, deixá-lo, Olhe que até tinha graça se por causa disto a Terceira e S. Jorge ficassem unidas numa olha só. Pelo caminho que as coisas levam não me admirava nada…
           A atividade vulcânica na zona da Serreta manteve-se por largo tempo insuspeita, dizendo os peritos que não apresentava motivos para alarme, apesar da invulgaridade do fenómeno.
        Então de um dia para o outro, começou a ouvir-se que o Vulcão já tinha chegado a terra, o que para bom entendedor queria dizer que estavam a ser trazidas para a Ilha fragmentos de pedra fumegante e amostras de lava expelida pelo Vulcão que se destinavam a um estudo minucioso por quem de direito. Esses fragmentos de pedra fumegante foram então medidos, pesados, observados na sua textura, temperatura e sabor. Mas continuavam meras pedras fumegantes diante das quais se perplexava a sorumbática face da ciência. E ia-se vivendo. Por enquanto todos se arrimavam no Seja o que Deus quiser, que só se vive uma vez.
     Foi quando apareceu a notícia de que americanos e russos se tinham aliado para explorarem os vulcões submarinos dos Açores. Notícia essa que estoirou como foguete em dia de tourada. 
   Tratava-se de uma agência de viagens norte americana que de pareceria com outra russa oferecia a estada de treze dias nos mares dos Açores, incluído viagens submarinas, palestras por cientistas especializados em oceanografia e escala nalgumas ilhas. Os mergulhos podiam ir até uma profundidade de seis metros e seriam feitos em grupos de duas pessoas acompanhadas do piloto do submarino. As grandes atrações, para além dos vulcões, eram as fontes hidrotermais, os geiseres de água irisada e a maravilha biológica das criaturas marinhas que por lá se moviam.
      Com os Açores alcandorados à invejável condição de novo paraíso do século XXI, o único lugar do planeta ainda intocado pela corriqueirice do tédio ou a banalidade do sofrimento, não hesitaram alguns cientistas estrangeiros em divulgar a tese de que, sim sem dúvida nenhuma, tinha sido ali nos mares dos Açores que a vida na terra teria começado. Uma imagem vendida de forma tão prometedora, e ainda por cima tendo os americanos como principais difusores, eles pioneiros nesse tipo de coisas (lembremo-nos da viagem à lua) aliciou muita gente. E os mares dos Açores passaram a ser vistos com o halo de uma nova lua, e esta bem mais à mão e de maior comodidade na exploração.

      Que dizer quando um vulcão imortaliza assim o sitio onde nasce?
       Podemos reconhecer, com verdade, não ser este o destino habitual dos vulcões que por todo o planeta vão surgindo. Este, que apareceu na freguesia da Serreta da ilha Terceira, era um Vulcão predestinado.
      Dele, poderá dizer-se que veio anunciar novos mundos ao mundo, lembrando a quem não sabia que a origem da vida na terra aconteceu ali, no mar açoriano. 

          M. Luísa Soares, escritora com uma vasta obra publicada.

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