Homenagem ao longo do mês de maio de 2025 a Álamo Oliveira que a 2 de maio deste ano celebrou 80 anos de vida.

A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (II)
Por Vamberto Freitas, crítico literário
Emigrou com os pais e os irmãos, aos quinze anos de idade. Saiu da Terceira com o entusiasmo imberbe de quem quer vencer depressa, embalando a imaginação com as estórias de encantamento que ouvira, como essa de sacudir as árvores e delas cair um Outono de dólares.
Álamo Oliveira, Contos D’América
Contos D’ América contém uma prosa caracterizada sobretudo pela ironia, comédia e pelo drama, tanto dos que se foram como dos que ficaram. Mexeu com a alma de nós todos. Nem deixa passar em branco que as crianças de um bem conhecido bairro da lata ao lado da Base das Lajes, e não só, as que foram dadas ou vendidas à tropa americana de vários escalões. Quem optou por nunca partir sofreu do mesmo modo dos que se foram. Por vezes, o narrador faz como que um riso vivo a auto-referências de outros romances seus que foram denunciados pela Igreja, como Murmúrios Com Vinho De Missa e Marta De Jesus (A Verdadeira), goza com a ficção de ter de se justificar perante o Vaticano. Não faltam sequer nestas páginas uma prostituta ou prostitutas com ganas dessa vida para dar de comer aos seus ou por gosto próprio, nos dois países que passariam a ser os seus, como no conto “A minha Estela”, e que em parte satisfaziam a fome sexual de americanos e de outros numa casa terceirense com o belo nome de Paz e Sossego.
Fiquemos por aqui, e sigamos com uma citação do conto “João, John Juan”, que nos mostra a transfiguração de uma personagem que percorre as mais variadas e inesperadas profissões e mundos nada comuns entre os nossos imigrantes, começando na ilha Terceira, passa alguns anos pela América e acaba no México. Trata-se de uma caminhada de vida singular, tão corajosa como cómica aos olhos de outros, aos que lerão estas novas páginas de Álamo Oliveira.
“João Pereira (nos Açores), John Perry (na Califórnia e Juan EL Portugês (no México) foi uma pessoa bastante conhecida… Da inteligência, dir-se-ão os sucessivos cursos tirados em Faculdades insuspeitas, todos voltados para a necessidade poética do ganha-pão, que fizeram com que mudasse de profissão como quem muda de camisa, numa cadência social muito alternada com prestígios, ora altos ora baixos. Começou por ordenhar vacas numa leitaria do Chino; vendeu automóveis e bolachas dietéticas na área da grande Los Angeles; preencheu declarações de indeclarantes que não sabiam ler nem escrever empurrando-os para o fisco; deu aulas de americano a indocumentados; foi orador sacro em concurso ganho pelo seu muito saber e talento: acabou num porta-a-porta cirúrgico, promovendo a venda de acrescentos de pénis a quem se sentisse mal servido…”.
Todos estes Contos D’América são um riso constante, sem nunca denegrir as personagens, a sua legitimação como seres ficcionais completos, nunca trespassam o drama ou a comédia que são, afinal, as vidas de nós todos. A capacidade poética do Álamo Oliveira é quase sempre transferida para a sua prosa desde os seus primeiros romances. Aliás, Emanuel Félix, o falecido supremo poeta açoriano, escreveu na contracapa da primeira edição do romance Já Não Gosto de Chocolates, referido anteriormente aqui. “Alguém o assinalou, de resto, com absoluta pertinência, ao falar de Álamo Oliveira e referindo já o sentido de humor, a tensão dramática e outras situações implícitas na prodigiosa humanidade com que o autor povoou centenas de páginas, todas elas marcadas por um incontestável virtuosismo estilístico”.
Todas estas palavras aqui citadas sinalizam essa sua consistência literária em toda a sua obra. Uma vida inteira a pensar a sua e nossa sorte entre dois mundos bem diferentes, mas que desde há muito fizeram parte do nosso destino. Sei que não se deve catalogar ou enredar um autor numa determinada visão da vida, em mutação constante. Álamo Oliveira é, no entanto, um existencialista, um escritor cujas personagens e escolhas do seu lugar na comunidade ou sociedade onde vivem é sempre da sua própria responsabilidade. Só que, desse modo, acaba por retratar um pouco de nós todos, e nesse processo de reinvenção, sim, a natureza da cultura ou mundividências colectivas.
II
Esta foi a estação de Álamo Oliveira. De uma vez publicou quatro livros. Para além dos contos que venho recenseando, tem ainda O Sábio Da Miragaia (romance), Caderno Das Letras (ensaios sobre literatura predominantemente açoriana), e Telas & Cores (sobre vários pintores das ilhas ao longo dos tempos). Um pouco antes mas ainda este ano saio Poemas Vadios, todos eles da Companhia das Ilhas, das Lajes do Pico, a editora empenhada também, creio, na reedição de toda a sua obra. Em qualquer um deles, directa ou indirectamente, as nossas comunidades de além-mar estão sempre presentes, fazendo das nossas ilhas continentes repartidos e alongados. Um dia vamos todos perceber que não é possível qualquer história credível da nossa contemporaneidade sem esse facto levarem em conta todo e qualquer historiador/a. O tempo dos nossos complexos quanto a um estatuto de e/imigrante desde há muito foi ultrapassado. Tal como os brasileiros já falam de “comunidades” abertamente, e de “favelas” só às escondidas, entre nós recusamos essa dualidade meramente linguística. Ser “emigrante” ou “migrante” é, outra vez, a condição de vida mais universal. Já não poderemos esquecer ninguém, nem sequer os luso-descendentes em toda a parte. O poeta, também ele vadio ou andarilho, sabe disso, e na sua escrita raramente lhe escapa. Eis aqui “as amigas de taunton”:
as amigas de taunton gostam
da américa devagar como se fosse de mim
sabem cantar como se bordassem a ponto cruz
e choram como se tomassem um remédio.
As minhas amigas de taunton descem
dos altares até perderem a inocência
e vão trabalhar porque o pão não é de graça
na américa têm tempo para beijar os filhos
amar os companheiros sempre que necessário
odiar os ventos maus da fita que bem merecem
o desprezo das minhas amigas de taunton
não se julgam de julgadas não se perdem
de perdidas e sempre se dão bem em cada estação.
Deixam ao passar um sorriso pacífico
– pássaros em formação de fuga para os açores.
As minhas amigas de taunton são guerreiras
de água e sal. Quando se juntam
formam um lindo ramo de sonhos.
As minhas amigas de taunton estão
como deve ser: velhas amigas como eu.
Eis aí, no plural, “como deve ser” toda a nossa história de povo que sempre embarcou ou voou não só em busca do Sonho, mas também – o que poucas vezes é dito ou escrito – em fuga a um país que apesar dos seus séculos de existência nunca se definiu ou acomodou com justiça e igualdade a maior parte da sua gente. Virado para dentro ou para fora da Europa e do Atlântico, pertenceu sempre a uma minoria de privilegiados, e o resto que se fosse amanhando como podia ou sabia. A emigração terminou? Isso só se deve às circunstâncias da globalização que se abre para a grande finança e se fecha para a humanidade. Como açorianos temos boa parte da Europa aos nossos pés, mas sem a nossa história de povo que chamam de periférico. Olhamos desde sempre para o grande Oeste. Não? Cabe agora à literatura reavivar a nossa longa e funda memória – individual ou colectiva. O que vai dar no mesmo para quem souber ler e reflectir o que está e não está escrito. Toda a arte é essa dualidade perante mente e olhos: domínio da nossa dignidade ou o susto da nossa sorte, toda a humanidade nas suas contingências de vida e morte, de felicidade e tristeza.
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Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. A segunda parte deste texto não foi parte do meu ensaio. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental do dia 14 de Maio de 2021.

