Martinho e o apelo da Mãe Natureza por Maria Luísa Soares (escritora)

Foi no tempo em que começava a aparecer vejas e a desaparecer sargos e quando a Iha toda começava a contrair-se em arrepio de enconchamento.

          Acordava-se de manhã sem vontade de nada ou com a abulia em avançado estado de enraização, sendo que tudo à volta era baço, bisonho e parado, não se abrindo depois o dia em alternativas de se sobreporem à enorme vontade de uma pessoa se deixar encolher toda e mergulhar em hibernação abençoada à semelhança dos bichos.

      Era o apelo todo poderoso da Mãe Natureza que assim reconduzia os filhos ao seu seio.

      Parecia um apelo de natureza irrevogável, e assim era entendido por todas as criaturas que, para onde quer que se virassem deparavam com uma cortina de nevoeiro cerrado e de chuva miudinha, ou com o medonho que eram os vagalhões do mar a avisar as pessoas de que elas estavam circunscritas, irremediavelmente circunscritas e sós, então mais se vergando tudo e todos ao fatalismo  cósmico que presidia ao destino da Ilha.

      Assistia-se ao estranho que era ver lá em cima no céu aves marinhas em círculos cada vez mais fechados que terminavam em voos rasantes e onde era bem visível o susto dos olhos dilatados e dos bicos abertos, cuja origem era o sufoco do céu baixo, desistindo elas de seus voos e de seus sonhos, que de nada valia a força de asas em tempo de enconchamento. As vacas, essas, digeriam a pachorra  e os alimentos sem necessidade de hibernação, pois que lhes era grato serem mungidas e alimentadas àquele ritmo, por isso tinham os olhos amodorrados e sábios.

       Eram os únicos animais da Ilha a saberem que nada mais nela existia com peso de existir, a não ser as ribeiras, pois nelas se instalara e parara todo o tempo da Ilha, só lá para abril se sobrepondo um outro tempo novo.

     Pessoas havia que em suas tentativas de rechaçar a estagnação recorriam a subterfúgios vários, porém sem grandes resultados. É assim que vemos José Maria, reformado de alguns anos, pegar no corta-relva e vir cá para fora atazanar o minúsculo retângulo de relva com que revestia uma parte do quintal. O barulho alastra pela vizinhança  num arremedo de esforço útil e meritório, mas incomoda o torpor e a própria relva muito acomodada em seu raquitismo verde.

     Havia também aqueles cujas tentativas vão mais longe que o quintal da casa, ou cujas necessidades  os levam a outras iniciativas, estas de resistência ao enconchamento ilhéu. Senão  vejamos como foi o caso de Martinho.

      Martinho era um pescador da Ilha Terceira a viver ali nas proximidades da base das Lajes. Próximo daquela riqueza americana de encher os olhos, apenas os olhos que não a barriga, essa para a encher terá de esfalfar-se em fainas de mar mais que suadas. Como naquela noite.  Agora não é altura de te afundares em perdição, é o lhe diz a mulher quando o vê nesses transes de descanso prolongado. E não houve nada que lhe valesse porque sendo a fome um necessidade de satisfação inadiável, teve de resistir a todos os apelos de hibernação, que a fome não perdoa, a incomodidade que ela provoca, idem.

    Por isso, ao cair da noite entrouxa-se em roupa,  pois que o frio de janeiro não é para brincadeiras, e ala que se faz tarde.

     Agarra no balde, nos sacos, na cana de pesca e despede-se do aconchego caseiro.

     Muito calma a noite. Pena era não haver mais estrelas, um homem sente-se reconfortado com a claridade. A doideira do mar deixa de meter medo, está uma pessoa ali mais perto dele a senti-lo respirar e a acompanhar-lhe o mau génio, as reviravoltas e os desconcertos. Quando está tudo mergulhado em escuridão é como se o mar se tornasse um estranho que se receia. Os perigos avolumam-se. Mas é só a princípio também,depois um gajo vai habituando os olhos e não lhe passa despercebido o branco dos vagalhões, o contorno dos rochedos, enfim, o dorso irrequieto daquele monstruoso animal marinho.

      Muito caprichoso este mar, sim senhor.

      Vamos lá a ver se desta vez  leva para casa coisa que se veja….Entrou-se no tempo das vejas, olarilas, e o dos sargos está a acabar. Mas tudo o que vem à linha é peixe.

                             San Macaio, San Macaio deu à costa

                              Ai deu à costa nas praias do Maranhão

                              Toda a gente, toda gente se salvou

                               Ai se salvou, só o San Macaio não

       O trauteio sendo aos poucos substituído pelo assobio, assim se aprochega Martinho do mar em saudação de intimidade que ambos prezam.

         Quanto tempo demorou Martinho ali sentado nem ele o sabe, nunca o sabe, talvez seja a própria maresia  a fazê-lo sentir o adiantado da hora na dormência dos braços e das pernas, no arrepio do nariz e das orelhas a propagar-se pelo corpo todo. Já passou em revista milhentas coisas: o jeito que foi o dinheirinho da América, deu para os atrasos na mercearia e os pequenos mimos no Natal. Se não fosse a bronquite do mais novo….e a queda da mulher, vá-se lá saber porquê, tudo coma a mania das limpezas. Mas podia ser pior. Quanto à filarmónica…pois a filarmónica. Distende-se no gosto que a lembrança dos ensaios lhe traz. Tem mesmo de se concentrar naqueles ensaios se  quiser fazer brilharete quando tiverem de ir tocar fora. Ah, fez bem em trazer a pinguinha. Ali bem escondida é um rico aconchego. E sabe tão bem:

                            Era o vinho ó meu bem, era o vinho

                            Era o vinho o que eu mais adorava

                            Só por morte ó meu bem, só por morte

                            Só por morte é que o vinho deixava

       Da onda quente que o envolve nascem ali saudades do bom tempo e das pescarias de barco no alto mar em grupo, era uma animação, cada um com as suas estórias. E as suas manias. Um pescador é um homem superior aos outros, longe da terra e à mercê do mar numa casca de noz, devia ser tratado com mais respeito. Mas respeito só o tinham para com os arpoadores de baleias…

       Cá está outra veja. Pronto, minha linda, vais fazer companhia às outras. Diacho, já nem sinto as pernas e os pés. Acho que fechámos com chave de ouro. E aqui o amigo não me leve a mal, mas já estava a ficar com a cabeça à roda de tanto retoiço. Qual fome, amigo, não diga isso, já está esquecida.. E não mude de assunto que ambos sabemos como às vezes cansa ser mar.

                              Eu fui à terra do bravo,

                              Bravo meu bem, para ver se embravecia

                              Bravo meu bem para ver se embravecia

                              Cada vez fiquei mais bravo

                               Sem a vossa companhia….

     Assim ajoujado com o balde cheio, sabe mesmo bem deglutir a meio da noite carradas de silêncio e de negrume, parece que vem de uma conquista importante e é dono do mundo todo. Incluido o seu destino de pescador. Pode até nem parecer coisa de se invejar, ora um pescador. Pois sim, mas agora não o troca por nenhum outro.

     Apressa o passo, que a isso o obriga a antevisão do aconchego de casa que tem à sua espera. 

     E por aqui se ficará Martinho, o tal marasmo e o tal enconchamento de Ilha a não lhe merecerem reparos de maior, pois que a vida de um pescador se sobrepõe a essas puerilidades.                                                                                                         

M. Luísa Soares, escritora com iuma vasta obra publicada.

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