
O Espirito Santo nos Açores
I A mudança
[1886-05-10 – A Illustração Portugueza, n. 43]
A quadra que atravessamos, é denominada nos Açores—o tempo do Espirito Santo. São as sete semanas gordas da faiscante e sã alegria popular, depois das sete semanas magras da quaresma, obrigadas a bacalhau com azeite e vinagre, olhos no chão e sermões fundibularios em todos os pulpitos, onde os demonios, o peccado, o roast-beef e o ultimo livro de Renan, são espancados a golpes de rhetorica sacra, em tiradas cavernosas como uma cathedral medieval, ao som de atroantes pitadas de meio-grosso, enfiadas com valentia nas narinas sacerdotaes.
Se ha alegria doudejante na terra, não quero que haja outra mais espumante de pueril encanto, do que a famosa temporada da Divina Pomba, nas ilhas açoricas.
A eterna primavera açoriana offerece as suas pompas de verdura, os calices perfumados das flores, o azul transparente dos ceus, e as soberbas paizagens dos valles, para scenario d’estas festas de uma originalidade pagā.
Ainda se ouve os ultimos repiques da alleluia, estrugindo no alto dos campanarios, e já começa a sagrada folia do Espirito Santo, no domingo de Paschoa, a que se chama—a primeira dominga. Seguem-se assim sete domingas até à Trindade.
Em cada rua das mais ricas ou populares, ha um imperio, um imperador e um mordomo. As insignias d’este imperio espiritual consistem n’uma grande bandeira feita de um largo panno de metro e meio, quadrado, de damasco de seda, vermelho, гоdeado de espiguilha dourada. No centro do panno, uma pomba de seda branca estofada, com os pesinhos, o bico e as azas gentilmente bordadas a ouro. A haste, da altura de dois metros, é de prata ou madeira envernizada, conforme o cofre da fazenda imperial. No tope ha outra pomba branca de madeira ou prata, com as azas abertas, poisada sobre uma multidão de laços de todas as côres do iris, pendendo as pontas compridas e fluctuantes á mercê da brisa.
A bandeira é guardada de um para outro anno em casa do mordomo. Além d’esta insignia, ha ainda uma corôa e sceptro de prata lavrada.
O cargo de mordomo é tirado á sorte todos os anņos. São egualmente tirados á sorte os nomes de sete individuos para casa dos quaes passa a bandeira simplesmente, de oito em oito dias, dentro do periodo de sete semanas que vae da Paschoa á Trindade. Chama-se a isto, na phraseologia local—uma mudança. A mudança é feita no domingo à noite, com grande apparato procissional, musica e foguetorio. Todos os convidados caminham em duas alas, com tochas accesas, no meio de um silencio religioso, graves e imponentes. No couce do prestito, vem a bandeira erguida a prumo como um pendão, conduzida por uma creança elegantemente vestida e enluvada, ladeada por outras creanças. Todas em cabello. Cada um dos pequerruchos que ladeiam o que leva a bandeira, pega n’uma ponta do panno, de modo a expolo bem em triangulo, aos olhos da multidão, destacando-se violentamente a cor vermelha e a pomba branca bordada a ouro.
O cidadão de casa de quem sae a mudança, colloca-se por detraz da creança que segura a bandeira, auxiliando-a.
A bandeira demora-se uma semana em casa do individuo que teve a dita de lhe caber uma dominga, e sae no domingo seguinte, com a mesma pompa para casa d’outro feliz.
Na casa onde está presente, n’um throno todo illuminado e florido, a bandeira do—Divino Senhor Espirito Santo, como elles dizem, ha bailarico rasgado até madrugada, libações freneticas de vinho d’uva de cheiro, da terra, e massa cevada.
Não julguem os delicados alfacinhas, que esta massa cevada, é por ahi qualquer peste. São biscoitos enormes (argolas, lhe chamam) que se enfiam no braço e que teem exatamente a configuração das enormes coroas de perpetuas que se usam nos actos funebres entre nós. Ha biscoito d’aquelles, que tem o tamanho da roda de uma carruagem e a grossura de uma perna. Cada alqueire de finissima farinha de trigo, amassada a primor pelos vigorosos braços das cachopas, leva leite quanto a farinha consinta, manteiga de vacca aos kilos e ovos as duzias. Fica o bolo ou argola, ao sair do forno com codea de um louro torrado brilhante, capaz de tentar um eremita, o miolo amarello e favado, que nem os celebres bolos de cannela das confeitarias lisbonenses lhe chegam. É comer e chorar por mais, meus caros leitores. A massa conserva-se fresca e odorifera que é um regalo, durante semanas.
É de rigor, cravar na argola algumas rosas ou cravos, quando ella é destinada a offertas. Estas offertas, não pensem que são conduzidas por um moço de fretes de esquina. Nada disso. Vão à cabeça, em taboleiros com bellas toalhas brancas de rendas, indo o biscoito a descoberto. Homens bem vestidos conduzem estas offertas. Na frente d’elles, tres foliões abrem o prestito. Um numero infinito de garotos acompanha enthusiasticamente.
Ha foliões pequenos e foliões grandes. Os pequenos são da cidade, os grandes da aldeia. N’outro artigo descreverei os foliões das diversas nuances. Agora direi sómente que, na cidade, é usada a folia pequena. São tres rapazes de quatorze a dezoito annos, vestidos fantasticamente de capa, calção e polainas, tudo de côres vivas, agaloado a ouro, no estylo dos principes das operas-buffas de Offembach[sic]. O folião do centro leva uma pequena bandeira vermelha de seda, desfraldada, em tudo semelhante à riquissima bandeira do imperio. Os seus dois collegas, tangem um, um tambor pequeno, o outro, pandeiretas. E cantam! Ai como elles cantam! Heide contar isso com mais vagar—n’outro artigo.
Maio, 1886.
José Maria da Costa
II O imperio:—o bodo aos pobres
[1886-05-17 – A Illustração Portugueza, n. 44]
Tudo é festa. Bejos ardentes do sol, estrondos de musicas marciaes, estampidos de polvora, flamulas navaes, arcos de buxo, lanternas venezianas: eis o imperio.
Ás mudanças pacatas dos domingos, que descrevi no meu primeiro artigo, succede a festa ruidosa do imperio, tendo á frente o mordomo e na qual se empenham por egual, todos os moradores da rua.
Ha o imperio do Espirito Santo na rua tal, ou o imperio da Trindade na rua tal, conforme convem ou é de uso; porque é claro que não podem realizar-se todos no mesmo dia.
Na sexta feira, ante-vespera da grande funcção, tudo é reboliço, tudo preparativos. Trata-se de abater as rezes, e ahi vão os bois todos catitas, cheios de campainhas e flores para o sacrificio em honra do Divino Senhor Espirito Santo, e em proveito dos pobres que hão de regalar-se no dia seguinte com as rações de carne de dois kilos.
Voltam os bois do açougue, a esquartejados, conduzidos solemnemente em carros com os fueiros enfeitados de ramaria e flores e uma bandeira de seda vermelha hasteada e fluctuante. Foliões á frente, tocando e cantando desesperadamente, no meio do charivari atroador do rapazio.
Dirige-se o cortejo pagão para a dispensa do imperio; uma casa onde se deposita a carne em exposição publica até ao dia seguinte.
Na dispensa, ornada caprichosamente de colchas de damasco de seda purpura, entre as quaes fazem uma brilhante figura as sanefas das egrejas encimando as portas, ha tres divisões: n’uma ostentam-se pyramides de pão de trigo com flores cravadas na codea, n’outra está a carne, e na terceira a bandeira do imperio no seu throno de lumes. Em baixo, em frente da bandeira erguida a prumo, a corda e o sceptro, ambos de fina prata lavrada. Neste recinto, assentadas em volta das paredes, estão as raparigas da visinhança, o que constitue outra exposição não menos curiosa.
A dispensa é visitada por milhares de pessoas.
É preciso notar que os emblemas do imperio—a bandeira, o sceptro e a corda, são levados procissionalmente para a dispensa na sexta feira á noite.
Raia o solemne e festivo dia de sabbado, e em todas as janellas de sacada, apparecem a comprimentar o astro-rei, bandeiras e galhardetes de todas as nações do globo.
Ás quatro horas da tarde, ha o bodo aos pobres, em duas mesas-monstros que occupam todo o comprimento da rua. Ha mesa que tem mais de quinhentos metros de extensão. Armam-se e desarmam-se com uma rapidez magica, e não embaraçam o transito. Imaginem um numero respeitavel de barricas vazias, collocadas longitudinalmente a um dos lados da rua, a um metro distante da parede e a distancia de cinco metros, umas das outras. Sobre ellas, assentam taboas de pinho emprestadas de uma estancia de madeiras. Eis a mesa improvisada.
Mas falta a toalha. Veem de uma Loja de fazendas umas tantas peças de panno cru (panno virgem, como elles lhe chamam) e desdobram-nas ao longo da comprida mesa. Em cima põem-lhe então, de metro a metro, dois kilos de carne em um prato de louça da Figueira (um prato branco com um peixe azul pintado no fundo). Ao lado da carne, dois pães enfeitados de flores.
Durante este acto de caridade balofa e ostensiva, que não minora em cousa nenhuma a miseria proletaria, sobem ao ar muitos foguetes; as varandas e as janellas regorgitam de senhoras vestidas de toilettes hilariantes. Na rua o apertão é medonho: curiosos, mendigos, festeiros, musicos e garotos, estes ultimos socando-se audaciosamente e atropelando velhas colericas, para correrem a apanhar os cannicos semi-queimados dos foguetes caidos obliquamente do céo.
Os pobres, munidos de uma senha, ficam entre a parede e a mesa. Ao centro da rua passa o cortejo, composto do mordomo e irmãos do imperio, a bandeira e a phylarmonica tocando o hymno do Espirito Santo. Cada pobre apresenta a senha e recebe n’um saquinho a carne e o pão, menos o prato, que é atirado para um cesto de duas azas, enorme, que trazem dois creados.
O fogo d’artificio arde ás dez ou onze da noite, ordinariamente n’uma rua estreita, de cinco metros; e quando as chammas entram pelas janellas, as meninas, soltande gritinhos afflictos, empurram-se umas ásooutras, de roldão para o interior das salas.
Ter uma roda de fogo, valente, vis-a-vis da janella, capaz de rebentar todos os vidros, é uma d’essas distincções, cuja subtileza escapa á analyse de quem não esteja enfronhado nos mysterios da sociedade insulana. Antes de arder o fogo, uma phylarmonica trepada a um coreto, executa varias polkas e valsas brilhantes; uma illuminação veneziana borda todos os predios; meninas riem em todas as janellas, e os rapazes passam, visitando todas as ruas dos imperios. É este tempo o S. Martinho dos paes que teem filhas casadoiras e não sabem como as impingir. Falta ainda descrever n’outro artigo, a coroação.
Maio, 1886.
José Maria da Costa.
III O imperio:—a coroação
[1886-05-24 – A Illustração Portugueza, n. 45]
Raia a alvorada do domingo, uma tinta indecisa de gris-perle espalha-se no ar como um nevoeiro diaphano, semelhante a um veo de noiva. Respira-se a plenos pulmões uma brisa fresca e balsamica; por toda a parte sente-se essa humidade particular do clima açoriano, que o torna temperado. Tinge-se de purpura a linha do horisonte sobre as aguas do mar, e emerge o sol radiante sob o seu resplendor de raios.
Tudo desperta, e a paz da natureza substitue-se pelo rufar dos tambores dos foliões, que vão e vem, descem e sobem a rua, visitam todos os imperios vizinhos, n’uma epilepsia de andarilhos, enchendo todos os recantos com as suas cantigas de pombinha, n’uma melopéa extraordinariamente comica.
Tudo se prepara para a imponente ceremonia da coroação do novo imperador, para o anno futuro. Veem chegando os convidados. Apparece a musica: uma banda marcial com trinta e tres figuras, os instrumentos de latão, reluzindo ao sol como ouro, luvas brancas, fardas de officiaes de marinha. A bandeira da philarmonica, de seda azul, encimada por uma lyra dourada, ao centro do panno, bordado o brazão da sociedade em campo de setim branco.
Pelas janellas avulta a parte feminina das familias, de toilettes risonhas de cassa de lã, de merino-palha, de seda clara. Todas as meninas em cabello, uma rosa perdendo-se nas opulencias d’umas tranças d’ebano, os olhos vivos, cheios d’alegria, abertos pela picante curiosidade, sob uns cilios gentis e velludineos. O cóllo divinamente tenro e farto, arfando sob a riqueza d’uma cruz d’ouro esmaltado, os seios protuberantes e saudaveis, o tronco cheio e robusto, as mãos rechonchudas sem luvas, onde os anneis scintillam. Eis a açoriana a traço largo. Na rua accumula-se a multidão, inquieta, febril d’enthusiasmo, jamais de devoção. Os imperios são as kermesses dos Açores.
Batem onze horas e tudo se põe em marcha para a egreja parochial, nos seguintes termos de cortejo:
Abre o prestito a folia, mas d’esta vez muito caladinha, levando a sua respectiva bandeira. Entre ella e o prestito ha um largo espaço preenchido pelo pyrotechnico e seus ajudantes, rodeados de uma nuvem de garotos, carregados de foguetes de tres respostas, que os fogueteiros lançam ao ar com uma habilidade tal, que, raro é o foguete que não vae esbarrar nos beiraes dos telhados, levando o terror aos mirones das aguas furtadas e as faiscas aos penteados das senhoras.
Seguem-se a este ruidoso piquete pedestre, em duas largas alas, os convidados e os moradores da rua, vestidos circumspectamente de panno fino preto, chapeu n’uma mão, grande tocha apagada na outra. No couce do prestito, o filho do imperador—uma creancita—com uma grande corôa de prata na cabeça e um respeitavel sceptro do mesmo metal na mãosinha, finamente enluvada. Não se imagina a riqueza e o bom gosto do vestuario da creança que serve de imperador. Se é menina, o collo, os pulsos, os dedos e as orelhas ostentam joias de grande valor.
Ladeiam a creança coroada, duzias d’outras creanças de differentes edades, tambem graciosamente vestidas.
Collocado por detraz do pequeno imperador, o pae, o sr. mordomo do imperio, que é o verdadeiro imperador, como não pode levar a corda na cabeça e o sceptro na mão, o que tornaria irreprimivel a gargalhada, leva hasteada solemnemente a bandeira do imperio, na posição atrapalhada de um gallucho quando lhe mandam apresentar armas.
Rodeiam o mordomo, os altos personagens do imperio. Atraz de s. ex., caminha gravemente, a compasso, a chibante philarmonica, notas soltas ao vento, fifias á larga. Uma pancadaria medonha de zabumba, caixas de rufo e pratos, faz estremecer d’alegria todos os corações. É de rigor executar o hymno do Espírito Santo durante todo o trajecto.
N’este enlevo d’almas, chega-se à egreja. O prestito avança magestosamente pela nave central em direcção ao altar mór, onde se postam as creanças. As insignias do imperio são collocadas sobre coxins de seda carmezim ao lado d’outras de outros imperios semelhantes. Os respectivos cortejos fraternisam no corpo da egreja. Procede-se à festa; finda ella, o celebrante que diz a missa, passa á ceremonia da coroação e colloca, pelas suas sagradas mãos, a coroa na cabeça do pequenito filho do novo mordomo ou imperador, para casa do qual vae a bandeira até ao anno seguinte e que tem de fazer todas as despezas d’esta funcção que teem arruinado muitas familias.
Depois da coroação, volta o prestito com a mesma ordem por outro caminho ao ponto de partida, entrando a bandeira e coroa sob uma chuva de flores, arremessadas das janellas, para casa do novo mordomo. Se este é pessoa rica, os padres incorporam-se no prestito e entoam um reverendo canto-chão pelas ruas, alternando-se com a philarmonica, o que dá um grande tom á solemnidade e faz babar de jubilo todos os circumstantes.
Chegado o prestito á residencia do mordomo, dispersa toda a frandulagem dos convidados, e apenas ficam os mais intimos, para um banquete onde a fartura e a solidez da mesa açoriana se patenteiam deliciosamente ás guelas ávidas dos srs. padres-mestres. Á noite ha baile, obrigado a piano, rebeca e flauta. No dia seguinte, ha… credores à porta dos mordomos.
Maio, 1886.
José Maria da Costa.
