José Luís Neto e o imaginário faialense por Víctor Rui Dores

“Desta ilha brota gente que tem fome de mundo.” J. L. N, pág. 29.

Os Açores são muito mais do que 9 ilhas, 19 concelhos e 155 freguesias. E carradas de razão tem o meu amigo escritor João de Melo que não se farta de dizer isto: “Venho às ilhas, não para ver paisagens, mas para sentir atmosferas”.

Com efeito, nestas ilhas, há muito mais paisagem para além do Caldeirão do Corvo; do Poço da Alagoinha, nas Flores; da Caldeira do Faial; da montanha do Pico; das fajãs de São Jorge; da Furna do Enxofre da Graciosa; do Algar do Carvão na Terceira; da Lagoa das Sete Cidades, em São Miguel; e da Baía de São Lourenço, em Santa Maria.

Os Açores são muito mais do que o seu anticiclone e do que a sua importância geoestratégica. Território avançado de Portugal, fronteira mais ocidental da Europa e charneira entre esta e o mundo atlântico, os Açores são, hoje, um espaço de cultura, de ciência e biodiversidade. E é precisamente aqui que, em tempo de massificação, podemos marcar a diferença. A diferença de viver em ilhas. Com tudo o que isto tem de bom e menos bom. 

Sentiu essa diferença o historiador e arqueólogo José Luís Neto ao visitar e depois fixar residência nos Açores, primeiro na ilha Terceira e, depois, na ilha do Faial, onde foi Diretor do Museu da Horta entre 2020 e 2023. Das experiências humanas profundamente vividas e intimamente sentidas na “ilha azul” e da sua ligação afetiva à “cidade-mar” dá conta o seu livro Horta, uma viagem na cidade-ilha dos museus (Letras Lavadas edições, 2025) que acabo de ler com aquele “plaisir du texte” de que falava Roland Barthes.

Bem documentado, informado e ancorado em vastíssimas referências bibliográficas, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, o autor dá tratamento criterioso e meticuloso ao que escreve, cruzando teses e hipóteses interpretativas. As dos outros e as suas.

Fruto de um desejo de documentar a verdade histórica, social, geográfica, arqueológica e existencial do Faial, bem como de dar a conhecer o património cultural da Horta, este lisboeta (d)escreve o passado, o presente e o futuro da “cidade aquática” em diferentes perspetivas e sob diversos ângulos de observação e de enquadramento. E dá rosto humano àqueles que, ontem como hoje, tudo fizeram e tudo fazem para que a ilha do Faial não seja esquecida nem se apague no mapa da globalização.

Com fluidez e frescura narrativas, José Luís Neto viaja pelo imaginário faialense como forma de procura e de descoberta. Preocupado com o curso da existência humana no palco do mundo, o autor colhe impressões e, discreto viandante quase anónimo, procura nessa viagem não o destino, mas a própria natureza da ilha que o acolheu e onde foi hóspede durante os já referidos três anos.

Observador infatigável do real, pesquisador subtil de realidades visíveis e invisíveis, José Luís Neto é um sensitivo e um impressivo que soube perceber o Faial e compreender as suas gentes. Para ele, “o faialense é o mais incompreendido dos açorianos” (pág. 21). E as 223 páginas do livro em análise, que se articulam como um “roteiro turístico personalizado”, são isso mesmo: uma homenagem de amor à ilha do Faial e à cidade da Horta. 

Livro de itinerâncias, peregrinações e partilhados afetos, rico em espessura evocativa, Horta, uma viagem na cidade-ilha dos museus aí fica, revelando um autor que, com notável poder de observação e minuciosa pormenorização, escreve com os olhos da memória.    

Horta, 30/03/2025

   Victor Rui Dores, poeta, romacista, dramaturgo, crónista e crítico literário

P. S. – Não sendo um livro de viagens, coloquei Horta, uma viagem na cidade-ilha dos museus ao lado das obras de alguns conhecidos viajantes que, no século XIX, sulcaram os mares açorianos e visitaram as ilhas. Por exemplo: o médico norte-americano John Webster, A description of the island of St. Michael (1820); o capitão inglês Boid, A Description of the Azores, or Western Islands from personal observation (1832); os irmãos ingleses Joseph e Henry Bullar, nesse livro espantoso que dá pelo nome de Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas (1838); Diário de J. Pierpont Morgan nos Açores em 1852-53, in My sweet Fayal, de Elisa Gomes da Torre, (Letras Lavadas edições, 2021); o viajante Silas Weston, Um observador observado (1856, Providence, editado, em 2013, pelo Núcleo Cultural da Horta); o zoólogo francês Henri Drouet, Catalogue de la Flore des îles Açores précédé d´intinéraire d´um voyage dans cet archipel (1857); o naturalista Alberto I, príncipe do Mónaco, La Carriére d´un Navigateur (1879); o oficial sueco jean Gustave Hebbe, Descrição das ilhas dos Açores (1880); a jornalista norte-americana Alice Baker, A Summer in the Azores with a glimpse of Madeira (1882); Bryant Barret, Relato da minha viagem aos Açores (Letras Lavadas edições, 2017), entre outros.

Mas também junto de algumas obras de referência do século XX, como, por exemplo, As Ilhas Desconhecidas (1926), de Raul Brandão; Mês de Sonho (1926), de Leite de Vasconcelos; Terras de Maravilha (1928), de Oldemiro César; Primavera nas Ilhas (1935), de Hugo Rocha; Corsário das Ilhas (1955), de Vitorino Nemésio; Mulher de Porto Pim (1983), de Antonio Tabucchi; Açores/Azores (1987), de Maurício Abreu e Álamo Oliveira; Azoren, noch fast unbekannte Inseln um Atlantik (1991), de Bernt Eichhorn e Dieter Zingel; Os Açores, o paraíso desconhecido (1991), de Diogénia Bettencourt Lima e Daniel Luc Godard; Açores vistos do céu (1998), de Filipe Jorge e António Valdemar; Açores, o segredo das ilhas (2000), de João de Melo; Açores (2003), de Daniel de Sá, Javier Grau e Undine von Rönn; Açores/Azores, As Ilhas Ocidentais The Western Islands (2004), de Karl-Heinz Raach e Victor Rui Dores; Açores, ilhas de sonho (2010), de Carmo Rodeia e José António Rodrigues; Açores a preto e branco (2017), de Sérgio Ávila e Victor Rui Dores; Crónicas da Atlântida (2018), de Luís Campos; Açores, o poema da luz (2023), de Sérgio Ávila e Sidónio Bettencourt.

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