Entre o Vento e a Saudade: O Legado Poético de Emanuel Félix

Entrevista do Diário Insular de Angra quando Emanuel Félix celebrou 50 anos de vida literária com o primeiro poema que publicou em 1952.

Emanuel Félix com 50 anos de vida literária “Importância da poesia não se mede ao quilo”

Diário Insular – Como recorda os primeiros tempos da sua actividade literária que teve início há meio século?
Emanuel Félix –
Quando comecei, guardava tudo o que escrevia. Algumas dessas coisas que escrevi nessa altura acabei mais tarde por as destruir por não gostar delas.
Nessa altura, fui influenciado por aquilo que se aprendia no liceu sobre literatura e comecei a amar certos poemas e poetas. Nessa altura deu-me assim uma espécie de “febrezinha” para começar a escrever.
A origem da minha poesia, nessa altura, tinha muito a ver com a influência de poetas que ainda hoje estimo muito.
Mais tarde, fui pensando em aspectos relacionados com a modernidade e a originalidade.

DI – Nesses primeiros tempos, o que pretendida transmitir com a sua poesia?
EF –
Esses poemas reflectiam uma vivência muito curta. O meu primeiro livro saiu quando fiz 17 anos e que tem alguns poemas que tinha escrito em 1952, quando começou a ser feita a impressão.
Esta comemoração dos cinquenta anos de vida literária, que é uma coisa que me fazem muito carinhosa, que eu não sei se mereço, tem como referência o meu primeiro poema publicado no jornal “A União”, em 1952.

DI – Qual o motivo que levou alguém a querer editar os seus poemas quando tinha penas 17 anos?
EF –
Nessa altura frequentava muito a Livraria Andrade. Algumas pessoas, entre as quais o mestre Maduro-Dias, demonstraram interesse em que fosse editado um pequeno livro com uma colectânea dos poemas que tinha escrito até essa altura. Esse pequeno livro recebeu um título pouco literário que foi “A Fonte da Saudade” e que foi publicado em 1954.

Influências literárias



DI – Como foram os anos seguintes no que se refere à sua produção literária? Ao longo do seu percurso de 50 anos acabou por ser influenciado por alguns poetas e correntes literárias…
EF –
Comecei a ler poesia muito cedo. Depois de passar por uma fase em que os poemas reflectiam uma certa nostalgia de uma infância passada há pouco tempo, tive a sorte de ter professores como Eduardo Tomé de Andrade e Manuel Dias da Fonseca, que influenciaram a minha maneira de ver a poesia.
Manuel Dias Fonseca é um grande poeta, embora não tenha uma obra muito vasta, nem nunca tenha tido um lobbie que o defendesse.
Comecei a ler as coisas que ele me oferecia e de outros poetas que começaram a surgir como o Almeida Firmino, que, tal como eu, andava à procura de qualquer coisa.
Quando o Almeida Firmino chegou à Terceira tivemos um encontro e logo nessa altura começámos a pensar quase da mesma forma.

DI – Assumiu com Almeida Firmino uma certa marginalidade literária em relação ao meio em que estavam inseridos, uma postura vanguardista?
EF –
Sim. Isso é verdade. Comecei a interessar-me pela poesia concreta dez anos antes do movimento chegar a Portugal.
Só em 1966 é que foi publicado o “Manifesto da Poesia Concreta” na revista “Tempo Presente”.
Embora tenha editada uma obra relativamente pequena, julgo que ela reflecte uma permanente procura dos caminhos da modernidade.
Isso era o que me motivava mais na poesia. Os meus primeiros poemas dessa fase foram recebidos com um escândalo.
Para mim o que é importante na poesia é a palavra exacta. Um poema tem valor quando não se consegue escrever a mesma coisa por outras palavras, quando não se pode substituir uma única palavra num determinado poema.
Por outro lado, sempre apostei muito na contenção nas palavras. Excluindo os casos das elegias ou de um poema sobre a morte de um amigo, tudo o resto tem apenas as palavras que são necessárias.
Tive também a sorte de ter família no Rio de Janeiro e o acesso a poemas de concretistas.

Importância da qualidade



DI – Como vê, muitos anos depois, essa evolução no que se refere aos caminhos que trilhou para a sua escrita?
EF –
Sempre tive uma preocupação que foi a qualidade. Ao longo dos anos, fui sacrificando muita coisa que escrevi. Como acontece com outros poetas, podia ter centenas de poemas publicados mas a minha opção foi sempre no sentido de publicar apenas aquilo que tem alguma mensagem ,que me pareça importante transmitir. Mas essa mensagem precisa muitas vezes ser descodificada.
Esse caminho não foi fácil, porque em Portugal quase ninguém se interessou pela modernidade da poesia brasileira. A poesia brasileira foi um sopro de ar fresco na literatura de língua portuguesa e foi quase ignorada em Portugal.

DI – Encontra alguma razão para que essa poesia brasileira tenha sido quase ignorada em Portugal?
EF –
A poesia brasileira tem grandes poetas mas não é muito lida em Portugal. Há um amigo brasileiro que costuma dizer que “Eles não nos querem!” Às vezes penso que o que ele diz é verdade.
A poesia brasileira tem uma linguagem diferente com uma mensagem de beleza, solidariedade e com palavras e ideias exactas e que não podiam ser outras.

DI – Há quem diga que é um dos maiores poetas vivos de Portugal. Em que lugar gostaria de ser colocado no âmbito da poesia portuguesa, partido do princípio (discutível) que tudo tem que ser arrumado do seu devido lugar…
EF –
A poesia concretista foi importante para mim como oficina, mas foram poucos os poemas dessa fase que publiquei. A maior parte deles foram destruídos.
Em determinada altura, decidi afastar-me dessa corrente e assumi uma maior ligação ao surrealismo que se fez em Portugal já bastante tarde.
Não gostaria de ser colocado em sítio nenhum. A minha poesia será talvez lírica e ponto final.

DI – Houve alturas em que fez uma pausa na escrita?
EF –
Sim. Sobretudo, quando tinha uma actividade profissional muito complicada. Para escrever poemas preciso de uma grande disponibilidade porque o meu processo de criação é um acto solitário.
Esse processo não me ajuda a fazer muitos poemas porque os vou rejeitando quando eles ainda nem sequer sairam da minha cabeça.
Há alturas em que encontro uma boa chave para fazer um poema e ele vai ficando algum tempo cá dentro e só depois é que o passo ao papel.

DI – Não edita um livro de poemas há cerca de quatro anos. Isso quer dizer que a sua produção literária está numa fase decrescente desde de “Habitação das Chuvas”?
EF –
Esse livro agrada-me sobremaneira. Porque quase tudo o que eu gosto de fazer em poesia está no “Habitação das Chuvas”.
Tenho escrito pouco porque a saúde já não é muita e não tenho aquela disponibilidade psicológica de outros tempos.

Poesia açoriana



DI – Como é que tem acompanhado a poesia e os poetas açorianos ao longo dos anos?
EF –
Houve uma altura em que se falava que eu era o melhor poeta vivo dos Açores e coisas desse género que nunca me agradaram muito porque não me entrego a esse tipo de jogo.
Ninguém que escreve, pinta ou compõe deve querer ser o melhor daqui. Há-de gostar, naturalmente, de ir um pouco mais longe. Pelo menos sempre pensei assim.
Nesse sentido, fiquei muito satisfeito com a tradução dos meus poemas para inglês feita por John Kinsella.
Quanto à poesia açoriana, não gostava de me meter num assunto onde, praticamente, não sou chamado. Um professor da Universidade dos Açores fez um ensaio em que falava da poesia açoriana e da sua autenticidade.
Julgo que não se pode avaliar esse aspecto pela quantidade de livros editados num determinado lugar. A importância de uma determinada poesia não se mede ao quilo. É preciso que exista um corpus que deve ter em conta mais a qualidade do que a quantidade.
Mas eu nunca me entusiasmei muito por essas discussões. Gosto da poesia e dos poetas que são meus amigos e não vou citar nomes para não me esquecer de nenhum.
O ensaio desse professor da Universidade dos Açores, aborda uma poesia que se considera como açoriana e autêntica e o meu nome aparece pouco a não ser numa nota de rodapé com um comentário em que ele diz que não fala de mim porque sou um poeta “universalista, apátrida e desenraizado”.
Se esse é o meu lugar dentro da literatura açoriana não tenho muito que dizer sobre esse assunto.

DI – Talvez se tenha esquecido que a poesia reflecte sempre o quotidiano de quem a escreve…
EF –
É isso mesmo. A poesia tem sempre uma geografia.

DI – Mas temos nos Açores bons poetas?
EF –
Tem havido várias gerações de bons poetas nos Açores que surgem mais ou menos de dez em dez anos.
Há muito boa poesia nos Açores. Existem por aí coisas belíssimas com também há muita coisa cinzenta…

Hortenses



Vem aí a Primavera.
Estão quase a desabrochar
As hortenses, quem m’as dera
p’ra meu jardim enfeitar!

Quem tem nome de Hortense,
Dessa flôr sem outra igual,
Com certeza que pertence
Aos jardins de Portugal.

E há hortenses também
Brancas, azuis, muitas cores…
As que meu jardim contém
São as rainhas das flores.

Querem exceder às rosas,
Trepadeira ou do Japão,
E tem nas pétalas mimosas
Um amor e um coração.

Angra, 17-III-952

EMANUEL FÉLIX
(Quinze anos e 3º ano do Liceu)

In: “A União” nº 17052 (14 de Agosto de 1952)

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