Alfred Lewis – Uma alma atlântica em terras californianas (An Atlantic Soul in California Soil)

ALFRED LEWIS: DO POETA E DE NÓS1 POR VAMBERTO FREITAS*

Das muitas e memoráveis coisas que aconteceram no II Congresso de Comunidades Açorianas, o lançamento de Poesias de Alfred Lewis ficará como uma das mais importantes. O livro foi editado pela Direcção dos Serviços de  Emigração, do Governo Regional  dos Açores, e apresentado ao público numa sessão especial na Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo. Foi um m momento acima de tudo muitíssimo justo: não só para com a memória deste nosso poeta e o valor de toda a sua obra literária (que vai muito além do presente volume) mas também para com Donald Warrin  (da Universidade Estadual da Califórnia, em Hayward), americano que dedicou longos anos à investigação, recolha e organização dos poemas e alguma prosa aqui reunidos.

Só mais uma palavra sobre Donald Warrin e o que ele, em meu entender, simboliza e representa para uma comunidade como a nossa nos Estados Unidos; palavra esta que vai também como uma outra resposta a  muito do que se diz em Portugal (e  na Europa em geral) dos Estados Unidos e do seu povo.2 O que motiva um professor universitário a dedicar quase toda a sua vida profissional­ a uma área como os estudos luso-americanos – quando as opções nos EUA são tantas, e algumas delas bem mais compensadoras – tem de ser um verdadeiro amor à cultura em geral, e a noção muito humana de que as sucessivas gerações de qualquer grupo nacional têm o direito de herdar e reter na memória o que de mais fino e civilizado se vai criando adentro de todas as suas geografias imaginadas, ou “territórios do coração”, como alguém também já escreveu.3  Este país tem  oferecido desde sempre a muitas  nações alguns dos mais competentes e persistentes indivíduos à dinamização e registo de culturas que, de outro modo, ficariam pelas suas próprias, e por vezes limitadas, fronteiras. Warrin pertence, uma vez mais, a esse grupo de estudiosos dispersos por toda a parte e vivendo discretamente no anonimato das universidades americanas. Acaba agora de recuperar, para nós todos, uma da mais admiráveis figuras da literatura açoriana e luso-americana.4

Alfred Lewis  (Alfredo Luís) nasceu na Ilha das Flores e emigrou para a América em 1922. Chegou cá com 22 anos de idade, com muitos sonhos, com muita imaginação,  e, como ele próprio viria a confessar num breve trecho biográfico, com “75 cêntimos americanos” na algibeira. Nunca mais regressou à ilha que tantos (e belos) poemas lhe inspirou e o “sustentou” no “exílio” através de infindáveis e quase sempre doces recordações. Viveu a maior parte da sua vida no Vale de San Joaquim,5 na companhia de Rose C. Lewis, sua esposa, e faleceu a 10 de Junho de 1977.

A minha geração conhecia o seu nome praticamente só através das “Aguarelas Florentinas”, os poemas publicados durante os seus últimos anos no Jornal Português, de San Pablo. Teremos, todos, de ver e rever profundamente este nosso poeta.

O que mais me impressiona na biografia de Alfred Lewis são o que me parecem ter sido o absoluto equilíbrio e a humildade com que viveu os seus longos anos entre nós na Califórnia. Nunca se desviou do pequeno meio imigrante em que estava inserido e nunca deixou de escrever apaixonadamente; submergiu-se inteiramente nos comuns problemas dos seus compatriotas enquanto produzia uma obra também em inglês, que o levou à beira da grandeza literária entre os próprios americanos6. Se mais longe não foi, fica de qualquer modo distinguido por ter sido ele, entre nós, até hoje, o único que encarou e viveu essa possibilidade7.

Com efeito, Alfred Lewis, açoriano que para cá emigrou com quatro anos de escolaridade, sem quaisquer contactos literários no país que deixou e sem pertencer a meios universitários americanos, foi o único escritor de língua portuguesa na América que conseguiu escrever em inglês e publicar um romance inteiramente de temática açoriana. Trata-se, claro está, de Homem is An Island que a Random House editou em 1951. Precede esse feito com a mera participação num congresso de escritores americanos e com a leitura intensa dos grandes nomes da literatura dos Estados Unidos. Nessa mesma época publica ainda alguns contos na que então era a prestigiada revista Prairie Schooner, assim como alguns poemas em jornais californianos de língua inglesa. Na gaveta deixou outros trabalhos, um dos quais, Sixty Acres and a Barn, que possivelmente virá a lume em pouco tempo8. Tem de vir, tem de ser uma exigência nossa – pois debruça-se sobre a vida de um imigrante numa dessas “leitarias” que foram a base de sobrevivência de muita gente nossa  na Califórnia.

Para além desta actividade literária no mundo americano, Lewis nunca deixaria de publicar poesia na língua portuguesa nos jornais luso-americanos, tendo trabalhado em alguns deles a tempo inteiro. Parte basilar da sua obra, reunida agora neste livro, Lewis aparece como o escritor e poeta imigrante por excelência. Tudo quanto aqui está relaciona-se com dois temas fundamentais ­– o mundo açoriano que para sempre deixou, e a consequente experiência imigrante que passou a viver. Creio que ele poderá ser considerado o fundador e o mestre, por enquanto inultrapassado, da nossa poesia de imigração, escrita em português e em inglês – tanto pela quantidade como pela sua qualidade. Livre de obrigações académicas e preocupações intelectuais elitistas, a sua escrita é a que mais “próxima” de nós estará, é o mais verdadeiro espelho do nosso ser, das nossas ansiedades e dos nossos triunfos9.

A irreprimível memória de Lewis tornou-se no seu refúgio às tribulações gerais e azares do dia a dia numa complicadíssima e solitária terra como a América. Essa sua faceta autoral, a das “Aguarelas Florentinas”, está necessariamente submergida no saudosismo e sentimentalismo que o Passado-Paraíso da ilha tende a despertar ma maioria de nós. Desde a “desatinada brisa”  do Atlântico à cor da flor, ao chilrear do melro, à alegria inocente de uma desfolhada, tudo lhe serve como tranquilo e reparador contraponto ao presente. Só que em Lewis  essa “sentimentalidade” vem finalmente embrulhada numa linguagem e forma a que outros poetas populares nossos só poderiam aspirar. Nem devem passar despercebidos o seu humor e por vezes sensualidade, aqui e ali, a espicaçarem o leitor e a relembra-lhe que, afinal, o sorriso são deve temperar toda a nossa existência e lembranças.

A poesia de uma alma assim repartida pelo passado e presente, por duas realidades nacionais, por duas línguas e dois modos  de ser e estar, que Lewis aparentemente abraçou sem complexos, e tentou, uma vez mais, equilibrar com arte e inteligência, tudo tem de abranger, tudo considera como parte íntima dessa complexa vivência que é a de todos os imigrantes em qualquer sociedade dos nossos dias10. Eis aí também, pois, a presença da sua actualidade e significações socioculturais várias, que o poeta ora regista (quase) friamente ora denuncia e critica. Comoveram-no particularmente as questões de guerra e paz dos seus dias, assim como a violência banal quotidiana ou a má sorte, por exemplo, de um trabalhador apanhado por qualquer circunstância indomável.

Poesias de Alfred Lewis. Que seja editada ou reeditada outra parte da sua obra. Para que conheçamos, todos, este inigualável testemunho do nosso próprio mundo imigrante. Afinal, não se pede muito. Outros escritores e poetas de entre nós, se tivessem vivido esta experiência literária, talvez até pediriam todas as condecorações consulares, regionais e lisboetas, e até talvez uma estátua na cidade ou aldeia natal11. Lewis, pelo temperamento que deduzo da sua escrita, envergonhar-se-ia com isso; mas gostaria, por certo, de ser lido pelos que foram e são os seus irmãos nesta longa caminhada à procura de um lugar e de uma vida-outra.

*Ensaio incluido no livro Alfred Lewis, Escritor de Emoções (DRC, 2002)

Gravura de Alfred Lewis por RoseAngelian Baptista, a partir de uma foto do autor.

Alfred Lewis – Uma alma atlântica em terras californianas (An Atlantic Soul in California Soil) é uma série da Bruma Publications (PBBI-Fresno State), coordenada por Diniz Borges e RoseAngelina Baptista, nesta semana (6-10 de Janeiro) em que passam 48 anos desde a morte de Alfred Lewis-10 de janeiro de 1977.

This week-long series is put forth with the collaboration of the Luso-American Education Foundation.


1 Publicado originalmente (sob o título “Alfred Lewis: Poeta Nosso”) no Diário de Notícias, de Lisboa, na sua edição de 1 de Junho de 1987, e depois incluído no meu  livro Para Cada Amanhã: Jornal de Emigrante (Edições Salamandra, Lisboa, 1993). Reaparece aqui com ligeiras modificações. O ponto de vista no texto inicial era o de quem escrevia para um jornal no outro lado do Atlântico como residente (e cidadão) de longa data nos Estados Unidos. Quando digo “cá” e “nós” incluo-me (mesmo agora à distância) nos que constituem a nossa diáspora na América do Norte. As notas de rodapé foram adicionadas a esta versão do texto. Direi ainda que o tom necessariamente informativo deste texto continua a servir os meus propósitos actuais. Muitos dos que falam destas temáticas e respectivas figuras continuam, por vezes, a ignorar a mais elementar informação referentes à nossa história e figuras diaspóricas. E não só. Retirei ou substitui aqui e ali uma palavra ou frase que melhor esclarece o contexto imigrante actual.

2 No texto original do Diário de Notícias tinha escrito (porque o meu estado de espírito era então outro e bem mais radical sobre o nosso panorama cultural, histórico e literário): “Palavra, essa, que vai também como resposta às muitas asneiras que se ouve lá fora acerca dos Estados Unidos e do seu povo”. Diga-se, ainda a propósito de tudo isto, que Donald Warrin, assim como alguns outros estudiosos e investigadores da nossa gente nos Estados Unidos, continua ainda hoje com a sua intervenção e contributos em várias frentes: participa em simpósios e outros encontros afins, tendo publicado recentemente (em co-autoria com o historiador luso-americano Geoffrey Gomes) Land  As far the Eye Can See: Portuguese Old West (Spokane, Washington, The Arthur H. Clark Company, 2001. Trata-se da história de pioneiros açorianos em vários estados do “far west” durante a segunda metade do século XIX.

3 Tirado do livro do já falecido Willie Morris (um  dos meus preferidos escritores sulistas) Terrains of the Heart and Other Essays on Home. A “nostalgia”, como muito bem tem escrito Eduardo Mayone Dias nos seus inúmeros trabalhos sobre a literatura luso-americana, é um dos temas mais obsessivos dos nossos escritores e poetas da primeira geração imigrante nos Estados Unidos.  Morris escreveu no prefácio a este seu livro: “Consider them (alguns dos seus ensaios) as one man’s comings and goings with his vagabond heart across the terrains”. É esta, creio, também a “essência”  de quase toda a nossa escrita na diáspora norte-americana.

4 Para mim, as duas literaturas estão intimamente interligadas, não sendo possível  entender uma sem a outra. Para a grande maioria dos escritores açorianos residentes no arquipélago, a América foi sempre “a miragem” de que nos falou José Martins Garcia. Para os poetas açorianos na América tanto a cultura literária do arquipélago como a popular foram sempre necessariamente uma das suas indeléveis fontes de inspiração essenciais ao seu memorialismo. Na cultura global dos nossos dias, foram eles, creio, como o foram os escritores imigrantes de talvez todos os outros grupos imigrantes nos Estados Unidos, e noutras sociedades “metropolitanas”, os pioneiros do transfronrteirismo  da nossa actualidade e futuro.

5 Para os imigrantes de todo o Grupo Central das ilhas açorianas, a mais “mítica” e referencial de todas as geografias diaspóricas. Alguns escritores mais ou menos “canónicos” norte-americanos haviam também de referir esta nossa imigração nas suas obras: John Steinbeck em O Milagre de San Francisco e nas As Vinhas da Ira, ou ainda muito mais cedo, por exemplo, Jack London em Valley  of the Moon. A escritora luso-americana Katherine Vaz, no seu romance Saudade e nos contos de Fado and Other Stories revisitaria, já na década de 90, num acto de absoluto revisionismo histórico e imagístico, a nossa “isolada” e conturbada presença nessa geografia de dor e de triunfo. Frank X. Gaspar, no romance Leaving Pico e em muita da sua poesia faz a mesma revisitação pós-modernista, re-imaginando toda a nossa história na Costa Leste americana. Já publicam neste momento sobre a mesma temática outros autores luso-americanos, como Sue Fagalde Lick.

6 “Grandeza” aqui em termos muito relativos. Mas antes dele (ou depois) nenhum outro imigrante     português na América do Norte havia sido recenseado, por exemplo, no New York Times, e muito menos publicado em tão importante editora como a Random House.

7 Com a excepção dos escritores luso-americanos Katherine Vaz e Frank X. Gaspar e, no Canadá, Erika de Vasconcelos.

8 Desde então (1987) nenhum outro trabalho de Lewis viria a ser publicado. Mas recentemente, no    simpósio Filamentos da Herança Atlântica (Tulare, Califórnia), na sua edição de 2002, falar-se-ia de novo na essencialidade  deste projecto, especialmente em relação ao romance Sixty Acres and a Barn.

9 A visão de Lewis (e a de outros poetas imigrantes) contrapõe-se, por outro lado, à visão por vezes caricatural e ideologicamente viciada por um anti-americanismo primário que alguns poetas e escritores açorianos têm feito sobressair em muita da sua obra “referente” à nossa experiência de vida na América.

10 Lewis nunca “limitou” a sua temática poética à vivência imigrante dos açorianos na Califórnia. Toda a sociedade americana era-lhe familiar, assim como se mantinha atento às questões prementes do seu tempo. Até a guerra do Vietname foi por ele reflectida na sua poesia.

11 A experiência com estas noções da grandeza literária nos Açores viria a conhecer, nestes anos mais recentes, alguns momentos passageiros mas estridentes, no que se refere a “prémios” e a “condecorações” oficializadas.

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