Alfred Lewis – Uma alma atlântica em terras californianas (An Atlantic Soul in California Soil)

  Alfred Lewis: Escritor de Emoções por Diniz Borges *

Os açorianos têm uma história repleta de desafios e triunfos em terras do Novo Mundo.   Um desses êxitos ocorreu há 70 anos.  Uma editora americana, a Random House, pública no ano de 1951, o romance de Alfred Lewis Home is an Island, que o jornal Chicago Tribune descreveu como: uma leitura deliciosa.  Uma proeza que pouquíssimos escritores emigrantes da sua geração, dos múltiplos grupos étnicos que compõem o então melting pot, terão tido.  Sete décadas mais tarde devemos celebrar esta efeméride, lendo a obra de Lewis em ambos os lados do atlântico e em ambas as nossas duas línguas, as mesmas duas línguas que Lewis já então utilizava na sua criatividade. Uma obra marcada por dois romances, contos, poesia e jornalismo.  Uma obra que foi além da saudade.     

Foi a 30 de abril de 1902 que nasceu o poeta, romancista e jornalista açoriano Alfredo Luís, mais tarde conhecido como Alfred Lewis.  Aos 19 anos, tal como muitos outros açorianos, deixa a sua terra à procura de uma vida melhor.  E tal como outros emigrantes das ilhas dos Açores, e de muitas outras terras, é sua intenção ficar meia-dúzia de anos em terras americanas, para com alguns trocos no bolso, regressar à sua ilha das Flores, à sua Fajãzinha.  Estávamos, em 1922 quando atravessou o Atlântico e o continente americano para se juntar, no condado de Merced, a um irmão que ali residia há sete anos. 

Como muitos dos seus conterrâneos, amassou o pão que o nem o diabo quereria amassar.  Primeiro, foi apanhar batata-doce.  Trabalhava do nascer ao por do sol, que não era, certamente, o mesmo por do sol que anos atrás havia descrito numa sala de aula da escola primária na sua freguesia Natal, e com os incentivos do professor, fez com que tomasse o gosto pela escrita.  O fraco conhecimento da língua inglesa levou-o a que nos primeiros anos tivesse que trabalhar naquilo que lhe aparecia, como por exemplo: ajudante de cozinha num restaurante português do norte da Califórnia. 

A saudade pela sua terra, aquela saudade que os emigrantes vivem no seu quotidiano, especialmente nos primórdios de residência em terra distante, levou-o a escrever um texto para o Jornal de Notícias, cujo redactor era um conterrâneo seu, Pedro L. C. Silveira.  Foi esse texto, que o levou a ser convidado a trabalhar para a Revista Portuguesa, editada por João de Simas Melo, um emigrante da ilha do Pico. Seria esse o começo de uma ligação íntima ao jornalismo português na Califórnia, tendo colaborado com várias publicações, especialmente com poemas inéditos para o Jornal Português.

A sua paixão pela escrita levou-o a ler e a estudar alguns dos maiores nomes da literatura norte americana, particularmente pelas páginas da revista American Mercury.  Assim, pouco a pouco, o homem que havia emigrado para os Estados Unidos com 19 anos, sem saber falar inglês, começou também a escrever no idioma de Shakespeare.  Tal como Joseph Conrad, o nosso Alfredo Luís, agora Alfred Lewis, pouco a pouco começa a publicar na língua adoptiva.  Desde contos para a revista Prairie Schooner, a poesia para O Carmel Pine Cone, passando por textos jornalísticos para os jornais das cidades de Los Banos e Dos Palos, o nosso emigrante florentino está já consciente de que esta é também uma forma de se fazer comunidade e da importância de estarmos inseridos na sociedade americana.  Ele próprio, ao refletir sobre a publicação de Home is an Island, escreveria:  “acredito que este livro, embora de maneira modesta, tenha servido para tornar conhecido o povo açoriano a muitos de nós que só o recordamos por meio da referência que Melville fez ao baleeiro açoriano, no seu imortal Moby Dick.

Como se disse, foi no ano de 1922 que Alfredo Luís emigrou para os Estados Unidos, mas o nosso jovem, provavelmente nem deu pelo que acontecia nesse ano no mundo literário e no grande continente onde acabaria por ficar sepultado.  Na Europa, mais concretamente em Paris, James Joyce viu o seu romance Ulysses publicado por uma livraria cuja proprietária era uma americana expatriada, Sylvia Beach.  Nesse mesmo ano o mesmo romance foi banido na Grã-Bretanha e os 500 exemplares enviados para os Estados Unidos foram confiscados pelas entidades alfandegárias americanas e posteriormente queimados.  Aqui nos States F. Scott Fitzgerald publica a sua segunda colectânea de contos: Tales of the Jazz Age e Sinclair Lewis publica o romance Babbitt.   E um pouco por toda a Europa e Estados Unidos este é um ano profícuo para a literatura.  T.S. Eliot publica o memorável poema The Waste Land e Hermann Hesse  Siddhartha.  Virgínia Woolf publica o romance Jacob’s Room e E.E. Cummings The Enormous Room.  O filosofo Alemão Oswald Spengler publica O Declínio do Ocidente e na Grã Bretanha Katherine Mansfield dá à estampa a sua colecção de contos Garden Party.   Foi ainda em 1922 que o poeta Claude Mckay publicou um volume de poesia intitulado Harlem Shadows, o qual despontou o movimento artístico afro-americano conhecido como The Harlem Renaissance—O Renascimento de Harlem.

Em Portugal o ano em que o nosso poeta florentino deixa a sua terra é marcado, no campo literário, por várias publicações e acontecimentos momentosos para a literatura.  Camilo Pessanha publica Clepsidra; Júlio Dantas, Arte de Amar; António Feijó, Sol de Inverno; Aquilino Ribeiro, Estrada de Santiago; Armando Cortes Rodrigues Ode a Minerva e Eugénio de Castro vê sair três dos seus livros: Tentação de São Mácaro, Canções desta Negra Vida e Cravos de Papel.  E foi em 1922, que na Azinhaga,  nasceu o que viria a ser o nosso primeiro Nobel da Literatura, José Saramago.

Mas esse ano de mudança na vida do jovem emigrante açoriano foi ainda um ano marcado pela violência na India, pelas afirmações do Papa Pio XI contra o vestuário das mulheres, pelo êxodo de negros americanos do Sul para o Norte dos Estados Unidos, pela dedicação do memorial de Abraham Lincoln em Washington D.C., pela formação oficial por Lenin da União Soviética e na França a vacina contra a tuberculose é dada pela primeira vez às crianças.

Um dos outros anos marcantes na vida de Alfred Lewis, foi, indubitavelmente, o ano em que, como se disse, Random House publicou o seu Home is an Island.  Também aí o nosso florentino esteve em óptima companhia.  É que nesse mesmo ano de 1951,  William Faulkner publica The Colleted Stories of William Faulkner; Wallace Stevens dá à estampa o livro de poesia The Auroras of Autumn; William Carlos Williams publica a sua autobiografia; Truman Capote The Grass Harp; J. D. Salinger The Catcher in the Rye; Herman Wouk The Caine Mutiny; Adrienne Rich A Change of World; William Styron Lie Down in Darkness; Robert Frost e Carl Sanberg, ambos saem com uma nova colectânea de poesia. Dos livros mais vendidos nesse ano nos Estados Unidos há que registar: From Here to Eternity de James Jones e Return to Paradise de James Michener.  Em Portugal, Natália Correia publica o livro de viagens Descobri que Era Europeia; Miguel Torga o livro de contos O Fogo e as Cinzas; Eugénio de Andrade Palavras Interditas; Sebastião da Gama Campo Aberto; Alves Redol Os Homens e as Sombras; Teixeira de Pascoaes Os Dois Jornalistas, entre outros. 

Foi também em 1951 que Milosz Czeslaw abandonou a Polónia e começou a escrever no exílio e nesse mesmo ano morreram alguns nomes conhecidos da literatura mundial e norte-americana tais como:  Anfré Gide e Sinclair Lewis.  Em 1951 o prémio Nobel da literatura foi para o sueco Pär Lagerkvist.

Assim, os anos de mudança na vida do nosso escritor açoriano foram marcados por eventos graúdos na vida literária europeia e americana.  Embora não se saiba ao certo se Alfred Lewis estava a par de todos estes acontecimentos, poder-se-á afirmar que o seu contacto com as letras dos Estados Unidos, através das revistas literárias que recebia, e com as quais colaborava, davam-lhe uma panorâmica da criatividade literária que se vivia no país adoptivo.  Ele próprio afirmaria: “aprendi do melhor que ofereciam os autores americanos e ingleses, homens e mulheres que mais tarde haviam de ganhar o Prémio Nobel.”  O seu gosto pela leitura e o que disse ser: “o prazer de ler coisas boas, de conhecer o estilo, de aprender a reconhecer a música de uma frase” tornam o nosso escritor luso-americano num homem consciente dos vários géneros literários e dos movimentos que ocorreram ao longo da sua vida de quase 75 anos (teria celebrado 75 em abril de 1977).  É que Alfred Lewis faleceu, curiosamente, no dia 10 de janeiro de 1977.  Faleceu pouco depois da autonomia açoriana dar os primeiros passos. 

Lendo a escrita deste homem audaz, oriundo da ilha das Flores, que viveu mais de 55 anos da sua vida na Califórnia, podemos confirmar a diversidade da sua obra, ora profundamente nostálgica, ora profundamente progressiva. 

Um escritor de emoções que apesar de nunca ter voltado às suas ilhas de origem viveu com elas no coração e foram elas, e os seus conterrâneos açor-californianos, os elementos fulcrais, as pedras basilares, de toda a sua criatividade literária.

*título de um livro que organizei, no ano de 2002, para comemorar o centenário de Alfred Lewis. Este texto em parte vem do prefácio do mesmo.

O PBBI-Fresno State agradece o apoio da Luso-American Education Foundation

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