
Com epígrafes que vão desde as Bucólicas de Virgílio ao Elogio da Tristeza de Daniel Gonçalves, o poeta começa por definir poesia -«a palavra/- ascensão nupcial onde o verso dança»-, onde é clara a definição do poema como a constelação vocabular que resulta dessa atitude do poeta que é abandonar a realidade – e ascender à alteridade onde o sujeito poético pode «ocultar a verdade» através da desfiguração da linguagem.
O belíssimo título do livro, os teus lábios podaram o sol às laranjeiras consiste numa imagem, motivo para lembrarmos as palavras de Eduardo Lourenço: «O poético não tem outra essência que a da imaginação, ou antes, do imaginar, combate do sonho com a realidade do homem a que o universo inteiro serve de matéria necessária.» (Lourenço, 1975: 79)
Ora o título, «os teus lábios podaram/ o sol às laranjeiras» conduz-nos imediatamente à linguagem e aos lugares da intimidade e à função da natureza e da luz do dia na exteriorização da expressão dessa intimidade. Esta belíssima imagem reúne dois recursos estilísticos fantásticos: a sinédoque- «os teus lábios», que substitui tu, ou seja, estamos perante a exteriorização da parte pelo todo. O outro recurso estilístico é a hipálage, ou seja, em vez de o verso ser apenas «os teus lábios podaram as laranjeiras», foi colocado «o sol» para enfatizar o quanto os lábios ofuscam a luz do sol: o brilho e a beleza dos lábios é tanta que ofusca a claridade das laranjeiras trazida pelo sol. Esta belíssima imagem junta-se a outra no mesmo poema «adormecer»: «teus braços a vindimar os / roseirais onde vou adormecer.» A frase sem a hipálage seria «teus braços …/onde vou adormecer».
Este livro assenta em recursos estilísticos riquíssimos: animismos, como por exemplo
«lábios húmidos d´altas vagas», eufemismos» – após teres visto luz és dado à terra» -, pleonasmos – «alcateia de lobos» -, anáforas, metáforas, entre outros.
Neste discurso poético de apelo à intimidade da casa, do amor, do amparo trazido pela simbólica do lobo – «são lobos os homens da tua idade» – «os lobos afagam a infância/do elevado limoeiro cultivado» -, há um universo de sentidos que exterioriza a necessidade de abrigo, seja o abrigo da natureza , o «amparo húmido da chuva», seja o refúgio desse lugar de intimidade, por oposição a uma torrente escatológica onde se ostentam «as ruínas de
pedra», «o desamparo da açucenas», «o sudário da dor», «o caos do mundo/na respiração das tábuas» .. Os cinco sentidos conduzem-nos assim a um mundo natural salvífico: a visão – «nos teus olhos» -, o gosto – «os teus lábios» -, o tacto – «com uma mão dizes adeus/com a outra segues o futuro» -, a audição – «em ávidos anseios/uma colina de aves/ canta/…».
E sim, esse mundo natural é habitado pelo ar – «o vento», a «respiração» – pela terra- “os mistérios da noite em tuas mãos/ sangram perfumes à terra…» -, pela água – «apagar largos rios, mares de água» -, pelo fogo – «o mar estava ardendo/silêncios…».
Estamos perante uma espécie de iniciação, como a que encontramos em Navegação de São Brandão nas Fontes Medievais Portuguesas (Nascimento, ed., 1998), onde é preciso superar todas as dificuldades de uma navegação para chegar a Avalon e conhecer a Paz. Negando-se a ser um poeta da torre de marfim, entrega ainda ao sujeito lírico a missão de afirmar «só saio daqui com os meus mortos».

Nesta poesia dialogante com Virgílio, Camões, Camilo Pessanha, António Nobre, Florbela Espanca, Natália Correia, Celan, Daniel Faria, entre outros, perante o «caos do mundo», o «ocaso do homem», a «perigosa servidão», há, sem dúvida, uma estética bachelardiana de ascensão e queda que atravessa toda a obra, unindo as duas partes do livro. A impossibilidade do vôo é trazida pelo compromisso do sujeito poético: «só sairei daqui com os meus mortos». É por isso que neste discurso poético as «asas» pairam «no abismo dos que sabem voar» – os outros, que não ele: «nas tuas asas/os deuses …/…/ sobrevoaram o ritmo certo/do vôo de pássaros»
Este belíssimo livro traz-nos uma poesia tanto elegíaca – pela realidade opressiva – quanto de exaltação -em louvor do amor, da liberdade, do mundo natural e dos sentidos e desse tão aguardado e demorado regresso a Ítaca. Cada vez mais, o poeta de hoje é alguém a caminho do espaço da sua intimidade, do silêncio, da casa, com tudo o que a mesma configura. Do mesmo modo, a peregrinação deste sujeito poético, que abandona as luzes da mediatizada ribalta urbana dos nossos dias, caminha, peregrino da Poesia, até chegar ao cume da montanha, onde pode voltar a abrir os olhos e ver, ver de facto, o absoluto heterodoxo, liberto e apaziguado pelo qual tanto esperou e para o qual tanto caminhou. Pode então dizer «os teus lábios podaram o céu às laranjeiras». É o regresso a Ítaca.
Ângela de Almeida – investigadora, ensaísta, poeta
Biliografia
Levy, Henrique (2024). Os teus lábios podaram o sol às laranjeiras. Ponta Delgada: Nona Poesia.
Lourenço, Eduardo (1975). Tempo e Poesia. Porto: Inova (1ª ed.).
Nascimento, Aires de (1998). A Navegação de São Brandão nas Fontes Portuguesas Medievais. Edição de Aires de Nascimento. Lisboa: Colibri.
Reportagem fotográfica das Letras Lavadas do lançamento em Ponta Delgada.









