Olhos nos Livros – Palavras de Costa a Costa com José Luís da Silva.

Título: Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters

Título Original da Obra: The Autobiography of Charles Peters. In 1915 the Oldest Pioneer Living in California Who Mined in ‘The Days of Old, The Days of Gold, The Days of ’49’. Also Historical Happenings, Interesting Incidents and Illustrations of the Old Mining Towns in the Good Luck Era, the Placer Mining Days of the 50’s (Sacramento: The LaGrave Co., Publishers, 1915.

Organização, Tradução e Introdução de Francisco Cota Fagundes

Ano de Publicação: 1997

Edição: Edições Salamandra, Lisboa

Quando, em 1849, chegou a notícia da descoberta dos filões de ouro nas encostas da Sierra Nevada na Califórnia, muitos açorianos se lançaram no sonho de rápido enriquecimento no El Dorado americano, chegando muitos deles em barcos baleeiros e outros tipos de embarcações que dobravam o difícil Estreito de Magalhães no extremo meridional da América do Sul até chegarem ao porto de San Francisco, Califórnia, de onde iniciavam a aventura épica nesse estado. Porém, ao constatarem a realidade, dificuldades e dúvidas da corrida ao ouro, e ao se darem conta de que, para eles, que vinham de uma experiente sociedade agrária, seria mais proveitoso trabalharem naquilo que conheciam melhor, a grande maioria ficou inicialmente pelo vale de San Francisco e arredores cultivando vários  produtos agrícolas e criando animais que seriam vendidos “a peso de ouro” aos mineiros e a quem lhes dava apoio logístico. Assim, por exemplo, na cidade de San Leandro, esses pioneiros, maioritariamente açorianos, ficaram conhecidos por criarem galinhas e cultivarem o solo com enorme eficiência como registou Jack London no seu romance The Valley of the Moon em que não se poupou em elogios à experiência agrícola e astúcia económica desses portugueses. Por isso, pouco se conhece daqueles que se aventuraram na corrida ao ouro, faltando fazer uma pesquisa minuciosa da documentação nos condados onde os portugueses nela participaram.

Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters, relatando as aventuras do faialense Carlo Pedro Deogo Laudier de Andriado, é um documento raro e valioso para a compreensão da epopeia portuguesa na corrida ao ouro na Califórnia.

Francisco Cota Fagundes fez um trabalho enormemente meritório não só na tradução de inglês para português dessa autobiografia como também na exemplar pesquisa de informação sobre Charles Peters e as suas atividades, incluindo o que descobriu numa introdução de 27 páginas, além de um apêndice de 30 páginas com cópias de documentação e ilustrações (desenhos de Lesley Jones na versão original) que muito contribuem para elucidar o leitor sobre a vida desse pioneiro desde as suas origens nos Açores até ao fim da sua vida na Califórnia.

Francisco Cota Fagundes nasceu na freguesia de Agualva na ilha Terceira, Açores. Emigrou em 1963 para a Califórnia onde trabalhou e estudou. Fez os seus estudos universitários na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) onde se licenciou em Espanhol e Português (1972), recebendo um mestrado em Estudos Luso-Brasileiros (1973) e um doutoramento em Línguas e Literaturas Hispânicas com especialização em Literatura Portuguesa e Brasileira e concentrações em Literatura Medieval Espanhola, Literatura Espanhola dos séculos 18 e 19 e Linguística Românica. De 1976 até à sua aposentadoria em 2018 foi professor na University of Massachusetts, Amherst, onde atingiu o grau de professor catedrático. Entre várias distinções, foi galardoado com a Medalha de Mérito Municipal da cidade da Praia da Vitória, a Insígnia Autonómica do Governo Regional dos Açores e o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique. É autor de uma vastíssima e importante obra que se debruça sobre vários temas da literatura e culturas lusófonas.

Um Português na Corrida ao Ouro é um livro de grande importância na compreensão do valor histórico e humano da presença portuguesa na Califórnia na primeira onda dessa imigração.  Nas suas 113 páginas capta o leitor não só pela parte autobigráfica de Charles Peters como também pelo cuidadoso e elucidativo esforço de Francisco Cota Fagundes em nos apresentar a realidade desse pioneiro português na mais completa versão possível. Um livro interessante, informativo, a não perder.

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