
Antes da Obra, está o homem que escreve, de seu nome José Henrique do Álamo Oliveira; está a criança numa casa cheia de irmãos e pais sensatos e inteligentes, os carolos na escola primária e, como mais novo e bem atinado, a ida para o Seminário de Angra, na altura a única Universidade dos Açores, com Padres Professores formados em Roma, com os famosos saraus de Cultura do Seminário e a criação das Semanas de Estudo, abertos à sociedade. Depois da saída do Seminário é apurado para todo o serviço, a tropa na Guiné-Bissau, com tiros à volta da escola onde ensinou crianças de pé descalço e dieta fraca. Depois a DRAC, na Rua da Sé e em outras ruas, onde colabora com muitos artistas na realização das Bienais de Artes Plásticas nos Açores, a moradia no Corpo Santo com vista sobre a baía e a descida pela Rua do Faleiro, as tertúlias dos cafés, o espaço do Pátio da Alfândega e das ruas da cidade, a fundação do Teatro Alpendre, os ensaios, os livros, as várias encenações, estantes carregadas de livros, a frontalidade e as aventuras da vida.
Após a reforma da DRAC, há a Universidade da Califórnia em Berkeley, a colaboração dada durante vários anos na Direção das Comunidades e o regresso à casa-mãe, à casa onde nasceu, que é o Raminho inteiro com a sua biblioteca, com os seus vizinhos e os camaradas da Sociedade. É bonita a atração pelo convívio com a sua gente. É bonito o irresistível prazer que o Álamo tem, de estar com os seus amigos no jogo de sueca ou dominó, com um gostoso sumo que vem da Escócia, talvez receita do seu amigo Noé… o Velho. Toda esta vida e relações, para além dos muitos livros lidos e dos simpósios nacionais e internacionais, são os ingredientes e o tempero para o caldo da escrita deste livro e de todos os outros que escreveu e há de escrever, ainda está novo! E para durar!
As personagens dos livros podem ter parentesco com o escritor que as criou, Eliseu dos Anjos, protagonista destes Belos Seios da Serpente, parece-me que é conhecido de ginjeira pelo Álamo Oliveira!
Esta é uma condição para que a ficção da escrita, do cinema, afinal de todas as artes, faça sentir ao leitor e ao espetador que está ali ao seu dispor, à mão de semear, a força da realidade do seu criador.
Este belo romance, as suas histórias, vão-se desenrolando com um Eliseu dos Anjos, ilhéu e emigrante e o Eliseu bíblico profeta e muitas outras personagens e profetas da Bíblia.
Em todo este livro há um diálogo entre a contemporaneidade e a antiguidade bíblica, desde o nascimento do Mundo, em que Jeová tem, a certa altura, a dúvida e se questiona se o Mundo não devia ser partilhado, com quem? Que outros deuses andam neste silêncio infinito? E continuando pela mão e escrita do Álamo, Jeová concluiu que as emoções não existiam.
Então, lembrou-se de fazer alguém à sua imagem e semelhança e foi o Tio Colatudo, ceramista, amigo de Jeová, que concretizou, moldando um boneco de barro que batizou com o nome de Adão. Com o exemplo do Tio Colatudo, Mestre Colatudo, os deuses e os poderosos, normalmente escassos de ideias e de sentido de formosura, passaram a dar valor aos artistas e escritores, e o Mundo saiu da selva e melhorou. E melhorou muito com a criação de Eva, que ajudou a abrir os olhos ao Mundo com a colaboração da Serpente de belos seios, que o Álamo bem realça a beleza.
A Serpente é uma mulher muito bela que Salomão ama e o inspira a compor o Cântico dos Cânticos, o mais belo dos cânticos do Antigo Testamento.

E este livro de Álamo Oliveira, é mais um dos seus livros com bom gosto, que tem a boa ideia de começar cada capítulo com versos do Cântico dos Cânticos.
Nesse contexto, deixem-me citar também alguns versos da Rainha de Sabá:
Beija-me com os teus doces lábios;/ que as tuas carícias são mais deliciosas que o vinho./ Os teus perfumes cheiram também!/ O som do teu nome é agradável perfume./ Por isso, as mulheres gostam de ti.
E como mero discípulo de Noé, também vinhateiro de poucas uvas, cito estes versos de Salomão:
Tu és as minhas delícias./ O teu porte é elegante como uma palmeira;/ Os teus seios são como cachos de uvas./ Vou subir à palmeira para colher os frutos./ Os teus seios são para mim como cachos de uvas/ e o perfume da tua boca como o odor das maçãs./ A tua boca embriaga-me como o bom vinho.
Entretanto, Eliseu dos Anjos, na América, acha que «tudo era grande demais para ser entendido por um ilhéu, que não tinha grandeza de terra apesar de ter grandeza de água».
Com as pragas do Egito, a seguir são descritas as pragas da América, as pragas que Eliseu dos Anjos bem conheceu e mais tarde recusou voltar a sofrer. «Muita vez quis ser repatriado, pois ao menos morreria e seria enterrado em português».

Álamo Oliveira recorda e oferece-nos um passeio pelos dramas e as tragédias do tempo antigo, e sempre a par, não se esquece dos dramas e tragédias do nosso tempo, de um mundo de guerras e violência provocadas por ganâncias de um capitalismo sem escrúpulos, dos negócios das indústrias de armamento, de novas escravaturas e ódios de etnias, de um saudosismo das ditaduras de sempre, de uma regressão de civilização, dos novos bárbaros às portas das cidades. É preciso dizer não ao injusto, sem papas na língua. Num Mundo inseguro, qual o papel do Conselho de Segurança das Nações Unidas? Como é possível que no Conselho de Segurança, pergunta-se, só tenham assento representantes de cinco países bombistas, todos portadores de bombas nucleares: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França?
E o autor continuando a guiar o leitor contemporâneo, descreve a aventura do povo hebreu à procura da Terra Prometida, o que continua atual com as migrações de povos de várias origens em busca das Europas e das Américas, como terras de emancipação e terras de matar fomes, com muitos mortos pelos caminhos do mar e da terra.

Os Belos Seios da Serpente é um livro de erotismo aberto, sem complexos de censuras, sem esquecer que persistem preconceitos ligados ao erótico, ao sexo, à realidade de fisiologia humana. A verdade é que, por exemplo, Pasolini não descreveu nem filmou nada que não tenha acontecido, pelos relatos da história, nas antigas cortes dos gregos, romanos, persas, hebreus e outros povos. Os bacanais faziam parte da vida dos poderosos, como sempre.
Pelas imagens que passam, este livro também funciona como um filme que dá a ver as personagens de uma história antiga, que fazem parte das raízes da humanidade tal como ela é e será. Sem raízes não temos apoio e desconhecemos quem somos, não sabemos o que fazer sem referências.
Ao ler este livro, volta a apetecer a ler a Bíblia, o livro composto por tudo o que existe, lido com a fantasia e a poesia de que os humanos são capazes. Mas os humanos pouco mudaram em milénios nos caminhos da História.
Não deixem de ler este livro por tudo que contém e também pela boa forma que apresenta e se deve aos cuidados e profissionalismo de Mário Duarte, seu editor.
DIMAS SIMAS LOPES
Vinha Branca, Biscoitos, 26.10.2024
Dimas Simas Lopes, é cardiologista, aposentado, artista plástico e escritor.

