Aos Cem Anos por Jorge Bettencourt

OS 100 ANOS DO MEU PAI (1)

Psss… PUM! PUM! PUM!

Comemoramos hoje o 100º aniversário do seu nascimento assim mesmo, com os foguetes com que costumava festejar os beijinhos dos bisnetos!

Enfrentar e vencer desafios, criados por outros ou estabelecidos por si, sempre foi a sua característica mais marcante. Foi assim na escola; tinha de ser sempre o melhor aluno. Foi assim no desporto; tinha de ser sempre o melhor atleta. Foi assim no amor; tinha de conquistar a mulher perfeita. Foi assim na profissão; tinha de ser o mais competente e trabalhador, reconhecido pelos pares de todo o mundo. Foi assim com os filhos; tinha de ser o melhor pai em todos os momentos. Foi assim com a família; a sua tinha de ser sempre a mais feliz.

Ainda jovem agrónomo, sonhou que Moçambique seria uma região produtora de café. Lutou por isso em Inhambane e na Malamba, em Quelimane e no Gurué, formou equipas de agrónomos e regentes agrícolas, motivou colaboradores e agricultores, construiu estações experimentais para o racemosa e o arábica, em zonas geográficas completamente distintas e a centenas de quilómetros do ar condicionado. Dormiu no mato e percorreu centenas de milhares de quilómetros, por picadas e pelo ar. Quando o regime colonial e os interesses das concessionárias do chá proibiram a concretização do sonho e o transferiram para Angola, perdeu a batalha, mas não desistiu. Passadas duas décadas, quando Abril o permitiu, regressou a Moçambique para defender o mesmo sonho.

Recuperado das consequências devastadoras da decisão do poder colonial, sonhou que o melhoramento genético era a solução para a praga da ferrugem que dizimava as plantações de cafeeiros. Durante mais de trinta anos produziu cerca de seiscentos híbridos diferentes, sempre com a ideia de combinar material de qualquer origem resistente ao fungo, fosse da Etiópia, fosse da Índia, fosse de Timor, com a variedade comercial mais utilizada. Provou que a investigação científica em Portugal podia ter sucesso e ser rentável. Criou duas obras-primas, o Catimor e o Sarchimor. Trabalhou para os cafeicultores de África, da América do Sul e da América Central, sempre consciente de que não eram ignorantes e tinham um espírito crítico muito apurado. Semeavam o que lhes fornecia depois de lhes explicar as vantagens da nova variedade, faziam viveiros, plantavam, acompanhavam os cafeeiros e apreciavam os resultados. Mas sabia que se falhasse uma vez, os cafeicultores nunca mais aceitariam uma semente.

Mas nunca falhou. Ano após ano, foi sendo cada vez mais solicitado para trabalhar nos países produtores de café, Angola, Brasil, Venezuela, Colômbia, México, Guatemala, Nicarágua, Honduras, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, para criar estações experimentais, para ensinar nas universidades ou para apoiar centros de investigação. A tal ponto que passava no máximo dois meses por ano em Portugal e o resto andava a calcorrear o mundo. Sempre em comunhão com o grande amigo e mestre Alcides Carvalho. Porque nisto de amigos e colaboradores, aplicava a metodologia do melhoramento genético: seleccionar os melhores dos melhores e rejeitar todos os outros.

Mas foi no amor que cumpriu o seu mais belo sonho. Apaixonou-se um dia pela bonita adolescente de passada rápida que viu na Almirante Reis e que nunca mais deixou de amar. Sessenta e seis anos de um casamento extraordinário foram a melhor evidência disso. Dizia que era o seu anjo da guarda e nós, mesmo os avessos a considerações religiosas, somos obrigados a acreditar que assim era.

A mulher que escolheu para o acompanhar na aventura da vida era de facto singular e certamente por isso, foi o primeiro e único amor da sua vida. Um amor que se fortaleceu na luta constante pelos sonhos que partilharam. Nos momentos mais difíceis, quando tudo parecia ruir, foram capazes de juntos, vencer as maiores adversidades. Assim foi na doença que quase o vitimou depois da transferência de Moçambique, na escolha de um processo de cura em que poucos acreditavam e que se transformou numa atitude de vida, no recomeço da carreira profissional, na recuperação de um acidente que nos filmes resulta em morte certa, nas crises de saúde que afectavam ora um ora outro. E foi graças a essa mulher maravilhosa e ao respeito e amor que tinham um pelo outro que durante sessenta e seis anos se mantiveram como um casal perfeito, farol da nossa família, com uma força admirável e exemplar.

Mas afinal porque é que comemoramos este aniversário com os seus foguetes?

Porque um dia disse-me que quando nascesse o seu décimo segundo bisneto, partia! Entendi, mas não me pareceu bem. Não era justo que o décimo segundo bisneto não ouvisse os foguetes que os outros ouviram depois de lhe darem um beijinho!

O menino nunca compreenderia o tratamento desigual e por isso continuarei a festejar os seus aniversários como se fossem beijinhos do Miguel, o seu décimo segundo bisneto!

Psss… PUM! PUM! PUM!

Jorge Martins Bettencourt
Junho 2024

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