O Cravo da Índia por Jorge Bettencourt

Notas de apoio às conversas com jovens de escolas secundárias sobre a viagem do último grande navegador português dos Descobrimentos

Introdução

A extraordinária aventura de Fernão de Magalhães, de Juan Sebastián de Elcano e de muitos outros é um excelente pretexto para falar aos jovens das realizações científicas e tecnológicas portuguesas do século XV; para falar do modo como esses portugueses venceram o medo e navegaram mares que não haviam sido navegados por europeus e sobre eles recolheram informações náuticas precisas; para falar do modo como os marinheiros e cartógrafos portugueses foram capazes de entender o mundo tal como o conhecemos hoje; e para falar do seu maior legado: serem capazes de adaptar e enriquecer a herança científica helénica, islâmica e judaica para resolver os problemas da navegação em todos os oceanos.

É verdade que Fernão de Magalhães e os pilotos portugueses que o acompanharam fizeram a viagem ao serviço do rei de Castela e Aragão, mas sem eles e sem o saber e a experiência acumulados pelos navegadores e exploradores portugueses que os antecederam, o objectivo do soberano castelhano de atingir as ilhas das especiarias pelo ocidente não teria qualquer viabilidade.

De facto, a primeira travessia do Pacífico por navios que partiram da Europa e navegaram para ocidente foi uma realização espantosa que se deveu ao português Fernão de Magalhães. O saber, a experiência e a obstinação de Magalhães foram determinantes para que a esquadra atingisse o arquipélago a que hoje chamamos Filipinas. Magalhães percebeu que a Terra era um planeta oceânico que podia ser navegado em todas as direcções e que podia usar as tecnologias náuticas e os conhecimentos de cartografia e astronomia adquiridos e acumulados por navegadores portugueses ao longo de quase um século de expansão marítima para atingir o objectivo que definiu para a expedição: alcançar as ilhas de Maluco (actuais Molucas), que julgava estarem na área de influência castelhana definida em Tordesilhas, e permitir que o rei castelhano dominasse o comércio das especiarias raras que a coroa portuguesa geria a partir de Malaca através da rota da Índia.

São admiráveis o saber e a tenacidade que Fernão de Magalhães demonstrou quando planeou a viagem às Molucas e obteve os meios para a fazer, quando insistiu prosseguir para sul até encontrar a passagem no extremo meridional do continente americano e quando atravessou o Pacífico sem nada saber sobre os ventos, as correntes e a navegação naquele imenso oceano. É certo que durante a viagem, Magalhães tomou decisões que hoje são difíceis de entender e, do ponto de vista dos resultados, ela pode ser considerada um fracasso: a esquadra demorou mais de dois anos para atingir as Molucas e a rota para o comércio das especiarias que descobriu acabou por não ter aproveitamento e ser esquecida em poucos anos. Mas apesar disso, Fernão de Magalhães continua a ser uma personagem histórica fascinante.

Antecedentes

O domínio do comércio das especiarias, designadamente o cravo-da-índia ou cravinho, a partir da sua origem, e a ocupação de territórios desconhecidos dos europeus em África, nas Américas e na Ásia, terá sido a principal motivação das expedições marítimas que as monarquias ibéricas, com maior relevância para a portuguesa, organizaram e realizaram no século XV e início do século XVI.

A concretização dessas expedições e dos objectivos políticos e económicos associados, requereram um esforço tremendo dos dirigentes e dos exploradores no sentido de aplicar todo o conhecimento da época nas áreas da arte de navegar, da construção naval e da cartografia na resolução de problemas e desafios totalmente novos. Nesse aspecto, assim como nos da guerra, da organização naval e da política internacional, os portugueses assumiram claramente a liderança durante quase um século, até os holandeses e os ingleses os substituírem ou ultrapassaremm. Como escreveu Pedro Nunes, os feitos dos navegadores portugueses não foram conseguidos “indo a acertar, mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria”. As missões eram cuidadosamente planeadas e executadas, e os pilotos embarcados dominavam as técnicas de navegação e a utilização das cartas náuticas, ambas mantidas actualizadas com os ensinamentos e os dados recolhidos nas expedições precedentes.[1]

Sobre esta matéria o Instituto Camões mantem o portal Navegações Portuguesas (instituto-camoes.pt) onde os interessados podem encontrar referências para o estudo deste importante período da História de Portugal.

Quando decidiu oferecer os seus serviços ao rei castelhano, Fernão de Magalhães conhecia bem o estado da arte da expansão marítima portuguesa no hemisfério atribuído a Portugal pelo tratado que celebrou com Castela em Tordesilhas, em 1494. O Tratado de Tordesilhas dividiu o mundo em duas áreas de influência: uma portuguesa, a oriente do meridiano que passava 370 léguas a Oeste de Cabo Verde, e uma castelhana, a ocidente desse meridiano.

De facto, em 1505, com 25 anos, o portuense Fernão de Magalhães alistou-se na Armada da Índia, enviada para instalar D. Francisco de Almeida como primeiro governador e vice-rei da Índia, depois da expedição de Vasco da Gama. Permaneceu oito anos naquela região e esteve em Goa, Cochim e Quíloa. Participou em várias batalhas, incluindo a batalha naval de Cananor em 1506, onde foi ferido, e a decisiva batalha de Diu. Ao serviço de Afonso de Albuquerque, participou na conquista de Malaca em 1511. Sob o comando de António de Abreu, chegou às ilhas de Bandama, Ambom e Seram, onde a noz-moscada e a maça eram produzidas, em 1512. Pela correspondência com o amigo Francisco Serrão que se estabeleceu em Ternate, teve informações sobre os lugares produtores de cravo, as Ilhas de Maluco ou Molucas do Norte.

Quando Fernão de Magalhães regressou a Lisboa em 1513, conhecia em detalhe a rota da Carreira da Índia, em particular a melhor rota para navegar o Atlântico rumo ao sul, assim como conhecia a posição geográfica das ilhas produtoras do cravo e das pretensões de Portugal sobre aquela região, à luz da interpretação portuguesa do Tratado de Tordesilhas. Em Lisboa terá estudado as mais recentes cartas náuticas portuguesas com a ajuda dos cosmógrafos Rui e Francisco Faleiro, e dos cartógrafos Jorge Reinel e Diogo Ribeiro.

Quando, em 1517, Fernão de Magalhães decidiu ir oferecer os seus serviços a Carlos I de Castela e Aragão, futuro Imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, depois de Manuel I de Portugal lhe ter recusado um aumento de tença, dispunha de informação actualizada sobre a ciência náutica portuguesa e sobre a posição e as acções de Portugal relativamente às cobiçadas Ilhas de Maluco, fonte do valioso cravo. E sabia que quando os navegadores portugueses chegaram à região em 1511 e começaram a tirar partido do comércio das especiarias, a sua actividade foi contestada pelos castelhanos, que alegavam que as Ilhas de Maluco se situavam no seu hemisfério.

A Viagem

No projecto que apresentou a Carlos I, Fernão de Magalhães assumiu que Castela tinha razão ao alegar que as Ilhas de Maluco não se situavam no hemisfério português e, por isso, propôs encontrar uma rota alternativa para as ilhas das especiarias navegando para ocidente, no hemisfério castelhano.

Como Joaquim Alves Gaspar escreveu no ensaio intitulado “O mapa de Fernão de Magalhães” que publicou no jornal Público em 22 de Outubro de 2018, “hoje sabemos, sem margem para dúvidas, que as Molucas se situavam no lado português.” No entanto, Alves Gaspar também esclarece que tal “não acontecia na época, quando os métodos de navegação e posicionamento não eram suficientemente rigorosos para se estabelecer com exactidão a longitude do arquipélago.” É por isso que no mesmo ensaio, Alves Gaspar refere o “planisfério anónimo conhecido por Kunstmann IV, de cerca de 1519, cuja caligrafia e estilo são típicos do cartógrafo português Jorge Reinel (filho de Pedro Reinel), e que alguns historiadores consideram ter sido apresentado por Fernão de Magalhães a Carlos I de Espanha, quando procurou o seu apoio para a missão.

Nesse planisfério, cujo original foi destruído na II Guerra Mundial pelos bombardeamentos aliados a Munique, a posição das Molucas é representada no hemisfério castelhano, “deslocada para oriente em mais de 1500 quilómetros” e com a legenda “ilhas de maluqua domde vem ho cravo”. Tal constatação levou Alves Gaspar a concluir que “admitindo que o planisfério de Kunstmann IV é, de facto, o que foi elaborado por Jorge e Pedro Reinel, (…) a exuberância da decoração, a forma simplificada do desenho das costas, a profusão de legendas em latim e a ausência de uma escala de distâncias mostram não se tratar de uma carta para ser utilizada a bordo, mas sim de um mapa destinado a encher o olho de um rei. Todos estes indícios apontam para a possibilidade de o planisfério de Kunstmann IV ter sido realmente desenhado a pedido de Fernão de Magalhães, para ser apresentado a Carlos I de Espanha.

Fosse ou não por efeito da eventual manipulação dos cartógrafos, aliás semelhante à que teria sido utilizada por Cristóvão Colombo em 1492, a verdade é que em Agosto de 1519 partiu de Sevilha uma armada comandada por Fernão de Magalhães e constituída por cinco navios − Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago − e cerca de 240 homens de várias nacionalidades, 34 deles portugueses (os números variam conforme a fonte), com a missão de chegar às Molucas navegando para ocidente. Carlos I terá financiado três quartos do custo do empreendimento, enquanto Cristóbal de Haro, um comerciante de origem flamenga que se terá transferido de Lisboa para Sevilha após um desentendimento com o rei português, terá financiado o restante.

Apesar de conhecermos os eventos que marcaram a viagem de Fernão Magalhães com base no relato do cronista Antonio Pigafetta, o lombardo, e no diário náutico do grego Francisco Albo, pouco ou nada sabemos dos reais objectivos e planos do navegador. Com efeito, foi sempre muito reservado na divulgação do que tencionava fazer, a ponto de os capitães e pilotos se queixarem de que só transmitia as ordens das operações com 24 horas de antecedência e sem mais explicações. Na ausência do testemunho do próprio Fernão de Magalhães, não é hoje possível saber as razões das várias decisões que alteraram o curso da viagem e parecem fugir à lógica da missão que lhe foi oficialmente atribuída por Carlos I.

Logo no início da viagem, a decisão sobre a rota adoptada na navegação no Atlântico é uma das que têm suscitado mais debates. Apesar das instruções do rei para se dirigir para as Molucas sem “nenhuma deficiência”, ou seja, sem perder tempo e pela rota mais rápida, a partir das Canárias Magalhães optou pela rota ao longo da costa de África, semelhante à que Vasco da Gama seguiu na primeira viagem à Índia, o que provocou os primeiros protestos dos outros capitães e teve um impacto negativo no desenrolar da viagem.

Vasco da Gama, depois de regressar da primeira viagem à Índia, indicou a Pedro Álvares Cabral a rota que tornaria a travessia do Atlântico Sul mais rápida: “velejar directamente para a ilha de Santiago do arquipélago de Cabo Verde, sem precisar nela tocar, no caso de ter água suficiente para quatro meses, e dali navegar com os alísios NE à proa, para o Sul e, se tivesse necessidade de guinar, fosse para Sudoeste“. Cabral seguiu a sugestão e o seu sucesso fez com que essa rota passasse a ser usada pela esmagadora maioria dos veleiros até aos nossos dias. Mas Fernão de Magalhães, ao navegar para Sudeste, passou entre Cabo Verde e o continente africano, em vez de seguir a rota que certamente conhecia porque foi a que percorreu quando embarcou na Carreira da Índia. Com isso perdeu tempo e teve de reduzir as rações de vinho e de água, o que criou descontentamento entre os tripulantes das naus. Por outro lado, Magalhães sujeitou-se às calmarias que os portugueses já sabiam evitar e só alcançou a zona do actual Rio de Janeiro, 84 dias depois de deixar a Europa. Cabral, em 1500 e partindo de Lisboa, só precisou de 44 dias para chegar à mesma zona.

Depois disso gastou muito mais tempo do que pareceria razoável a inspeccionar toda a costa até ao Estreito. Magalhães precisou de 14 semanas para chegar ao Porto de São Julião, numa rota que uns anos mais tarde Juan Sebastián de Elcano percorreu em 5. É por isso que há quem seja da opinião que os 13 meses que Magalhães permaneceu no Atlântico até alcançar o estreito, para além de prejudicarem o relacionamento com os capitães e pilotos, podiam ter comprometido o sucesso da expedição.

Uma das explicações possíveis para tal demora é que estaria a avaliar a forma de assegurar o seu próprio lucro e futuro, assim como o lucro de Cristóbal de Haro, o banqueiro e comerciante de Burgos que desempenhou um papel fulcral na organização e financiamento da viagem. A escolha de uma rota de travessia do Atlântico muito a sul e a inspecção cuidada das costas da América do Sul, podem ter estado associadas a planos para tomar posse dessas terras conforme acordado com Carlos I e a um eventual futuro tráfego de escravos de África, em sociedade com Cristóbal de Haro.

Em 1503, Cristóbal de Haro era um comerciante de especiarias em Lisboa e os seus navios transportavam escravos da África Ocidental para as Antilhas. À época o tráfego de escravos era uma actividade normal, legal e muito rentável. Haro trocou Lisboa por Sevilha quando em 1517 seis dos seus navios negreiros foram afundados por um pirata português e o rei de Portugal não aceitou indemnizá-lo. E em Sevilha, teve um papel central na preparação e financiamento da viagem de Magalhães com quem provavelmente terá estabelecido um acordo comercial.

Parece oportuno lembrar que uns anos mais tarde, em 1525, Juan Sebastián de Elcano, um dos que, como veremos, regressou a Sevilha em 1522 ao comando da nau Victoria, repetiu como piloto a viagem de Magalhães. Esta nova tentativa foi comandada por Loaysa, mas, como a anterior, foi organizada e financiada por Haro. Loaysa recebeu ordens do rei para repetir a viagem de Magalhães, evitando os seus erros. Ainda assim, Elcano e Loaysa voltaram a cruzar o Atlântico perto do equador, ainda um pouco mais a sul. Dada a insistência nesta rota, parece legítimo especular que Haro, em associação com Magalhães e depois Loaysa, quisesse investigar a possibilidade de uma travessia ao sul do Equador que evitasse as rotas portuguesas usuais e permitisse o tráfego mais directo de escravos da Nigéria e das bacias do Congo para as terras da América do Sul atribuídas a Castela pelo tratado de Tordesilhas e descobertas por Magalhães.

Quando a expedição de Fernão de Magalhães continuou a navegar para Sul depois de tocar o Rio da Prata, passou a enfrentar terras desconhecidas e potencialmente perigosas. Mesmo o estuário do Rio da Prata não era considerado seguro porque 3 anos antes, em 1516, uma expedição comandada por Juan Díaz de Solís tinha ali estado, mas os nativos assassinaram, esquartejaram e devoraram o próprio Solís e outros tripulantes, deixando os restantes regressar a Castela.

Quando a esquadra atingiu o Porto de São Julião, Magalhães decidiu passar ali o inverno, apesar de terem de consumir os mantimentos que transportavam porque não era possível reabastecerem-se em terra. A decisão suscitou a oposição de muitos dos oficiais que entendiam que se não encontrassem a passagem para o Pacífico, não teriam autonomia para regressar. Preferiam continuar a procurar a passagem enquanto as condições meteorológicas permitissem, ou, em alternativa, arriscar a ida para o Maluco pelo Cabo da Boa Esperança.

Magalhães não concordou e Juan de Cartagena, Gaspar de Quesada e Luis de Mendoza organizaram um motim contra ele. Magalhães reprimiu a revolta com mão pesada: mandou apunhalar Luis de Mendoza, decapitar Gaspar de Quesada e os corpos dos dois foram esquartejados e expostos durante 3 meses. Pouco antes de deixar o Porto de São Julião, mandou desembarcar Juan de Cartagena e um frade, Pedro Sánchez de Reina, deixando-os em terra entregues à sua sorte, e acorrentar mais de quarenta outros conspiradores, incluindo Juan Sebastián de Elcano, condenando-os a trabalhos forçados a bordo.

Entretanto a nau Santiago, comandada por Juan Serrano, que Magalhães mandou explorar o Sul da região, encalhou e afundou-se junto da foz do rio Santa Cruz, tendo os seus tripulantes sido resgatados por terra. Três meses depois, em 22 de Outubro de 1520, a San Antonio e a Concepción encontraram finalmente a entrada do que poderia ser a passagem para o Pacífico no fundo de uma larga baía. Mas quando Magalhães ordenou à San Antonio que explorasse aquela passagem, Esteban Gómez e Gerónimo Guerra assumiram o comando da nau e rumaram a Espanha.

Depois de 38 dias a percorrer o sinuoso estreito, em 28 de Novembro de 1521, a esquadra de Magalhães entrou finalmente no Oceano Pacífico. Estava reduzida a três navios e 166 homens!

Depois foi a travessia do Pacífico que Pigafetta descreveu assim: “El miércoles 28 de noviembre, desembocamos por el Estrecho para entrar en el gran mar, al que dimos en seguida el nombre de Pacífico, y en el cual navegamos durante el espacio de tres meses y veinte días, sin probar ni un alimento fresco. El bizcocho que comíamos ya no era pan, sino un polvo mezclado de gusanos que habían devorado toda su sustancia, y que además tenía un hedor insoportable por hallarse impregnado de orines de rata. El agua que nos veíamos obligados a beber estaba igualmente podrida y hedionda. Para no morirnos de hambre, nos vimos aun obligados a comer pedazos de cuero de vaca con que se había forrado la gran verga para evitar que la madera destruyera las cuerdas. Este cuero, siempre expuesto al agua, al sol y a los vientos, estaba tan duro que era necesario sumergirlo durante cuatro o cinco días en el mar para ablandarlo un poco; para comerlo lo poníamos en seguida sobre las brasas. A menudo aún estábamos reducidos a alimentarnos de serrín, y hasta las ratas, tan repelentes para el hombre, habían llegado a ser un alimento tan delicado que se pagaba medio ducado por cada una. Sin embargo, esto no era todo. Nuestra mayor desgracia era vernos atacados de una especie de enfermedad que hacía hincharse las encías hasta el extremo de sobrepasar los dientes en ambas mandíbulas, haciendo que los enfermos no pudiesen tomar ningún alimento. De éstos murieron diecinueve y entre ellos el gigante patagón y un brasilero que conducíamos con nosotros. Además de los muertos, teníamos veinticinco marineros enfermos que sufrían dolores en los brazos, en las piernas y en algunas otras partes del cuerpo, pero que al fin sanaron. Por lo que toca a mí, no puedo agradecer bastante a Dios que durante este tiempo y en medio de tantos enfermos no haya experimentado la menor dolencia. Durante este lapso de tres meses y veinte días, recorrimos más o menos cuatro mil leguas en este mar, que llamamos Pacífico porque durante todo el curso de nuestra travesía no experimentamos tormenta alguna. Tampoco descubrimos durante este tiempo ninguna tierra, a excepción de dos islas desiertas, en las cuales no hallamos más que pájaros y árboles, y por esta razón las designamos con el nombre de islas Infortunadas. No encontramos fondo a lo largo de sus costas y sólo vimos algunos tiburones. Están a doscientas leguas la una de la otra, la primera por el grado quince de latitud meridional, y la segunda por el 9°. Según la estela de nuestra nave, que medíamos por medio de la cadena de popa, recomamos cada día de sesenta a setenta leguas; y si Dios y su Santa Madre no nos hubiesen favorecido con una navegación feliz, habríamos todos perecido de hambre en un mar tan dilatado. No pienso que nadie en el porvenir ha de querer emprender semejante viaje.[2]

A esquadra de Magalhães chegou à ilha de Homonhon, nas actuais Filipinas, no dia 16 de Março de 1521 e Francisco Albo assinalou no seu diário náutico que estavam 9o 2/3 a Norte do Equador e 9º a Oeste do antimeridiano do Tratado de Tordesilhas, portanto já no hemisfério português! Por outras palavras, quando o navegador Fernão de Magalhães completou com êxito dois feitos extraordinários − a descoberta e navegação do estreito que liga os oceanos Atlântico e Pacífico e a primeira travessia do Pacífico, o maior oceano do mundo −, viu-se confrontado com a prova da certeza do que tinha antes negado: aquelas ilhas e, naturalmente, as Molucas estavam no hemisfério português! O homem que moveu mundos e fundos para convencer Carlos I de Castela de que as “ilhas de maluqua domde vem ho cravo” estavam no hemisfério castelhano e que provou que era possível chegar a elas navegando para Ocidente, tal como Colombo sonhou sem nunca concretizar, deixou de ter argumentos para continuar a defender o propósito da viagem e viu-se na contingência de ter de reconhecer o erro perante o soberano.

Nunca saberemos se foi, de facto, uma surpresa para Fernão de Magalhães. Mas sabemos que até à sua morte, 41 dias mais tarde, não revelou qualquer interesse nem plano para navegar as cerca de 540 milhas que ainda faltavam para atingir as Molucas e reivindicar as ilhas das especiarias para Castela, de facto o principal objectivo estabelecido por Carlos I para a expedição. Ao invés, decidiu ficar nas ilhas a que chamou de São Lázaro e que, sendo desconhecidas para os europeus, passariam a ser suas e do rei castelhano.

Mais uma vez, Fernão de Magalhães tomou uma decisão difícil de entender e, neste caso, com consequências trágicas para ele próprio. Aparentemente com o objectivo de dominar o arquipélago que mais tarde constituiu as Filipinas e cristianizar os povos nativos, desobedeceu às ordens de Carlos I de não hostilizar nem combater as populações das terras que descobrisse. Devia contactá-las, fazer trocas e acordos, mas não desembarcar para impor a sua força. Fernão de Magalhães cometeu o erro de se intrometer nos conflitos locais e decidiu desembarcar uma força com a missão de neutralizar o líder da ilha de Mactan, Lapu-Lapu, que não aceitou o domínio dos europeus. Em 27 de Abril de 1521, talvez imbuído de uma crença de invencibilidade, assumiu o comando de uma força de 49 homens numa operação mal planeada e sem protecção da artilharia dos navios. Depois de um longo percurso com água pela cintura, foram recebidos na praia por 1 500 a 2 000 nativos, comandados por Lapu-Lapu. Após várias horas de combate desigual, Fernão de Magalhães foi morto e o seu corpo exibido pelos nativos como um troféu. Lapu-Lapu passou a ser venerado pelo povo de Mactan como herói e o rei de Cebu, que aparentemente Magalhães tinha convertido ao cristianismo e feito aceitar a soberania do rei de Castela, passou a ser considerado como um fraco.

No relato do combate em que também foi ferido, Pigafetta descreveu o modo como os nativos atacaram mortalmente Fernão de Magalhães e terminou com estas palavras: “Privaram da vida o nosso espelho, a luz, o conforto e o verdadeiro guia”. De facto, a morte de Magalhães provocou uma crise de autoridade na esquadra, acentuada poucos dias depois pelo massacre dos capitães das naus, e dos 24 homens que os acompanharam, num banquete-cilada organizado pelo rei de Cebu.

A nomeação do português João Lopes de Carvalho para o comando da esquadra depois do massacre de Cebu, marcou o início de uma fase em que o objectivo da expedição foi esquecido e os dois navios que restaram depois do abandono da nau Concepción por falta de homens para a guarnecerem, passaram a dedicar-se à pilhagem, em especial nas costas da ilha de Bornéu.

João Lopes de Carvalho foi substituído, em 27 de Setembro, por Gonzalo Gómez de Espinosa no comando da esquadra e na capitania da Trinidad, e Juan Sebastián de Elcano foi escolhido para capitão da Victoria. Gómez de Espinosa decidiu finalmente rumar às Molucas, mesmo correndo o risco de serem detectados e presos pelos portugueses. Chegaram à ilha de Tidore em 8 de Novembro de 1521 e após negociarem com os locais, reabasteceram e carregaram os navios de cravinho. E antes que os portugueses notassem a sua presença nas ilhas, decidiram regressar a Sevilha, tomando cada capitão um rumo diferente: Elcano, com a Victoria, pelo Cabo da Boa Esperança, o caminho mais curto e conhecido, mas dominado pelos portugueses; Espinosa, com a Trinidad, pelo Pacífico que mal conhecia, mas tinha recentemente navegado.

Em 21 de Dezembro a Victoria, com 47 homens, rumou a Timor para se reabastecer antes de empreender a viagem de regresso. Quatro meses depois, a Trinidad, com 55 homens, largou de Tidore para atravessar o Pacífico e tentar chegar a Darién, no atual Panamá, a única costa americana do Pacífico conhecida pelos europeus naquela época.

Após 4 meses de viagem, uma forte tempestade obrigou Gómez de Espinosa a regressar às Molucas para reparar os danos, desta vez como menos sorte do que na primeira. Ao largo de Ternate, a Trinidad foi afundada pelos portugueses comandados por António de Brito, a carga de cravinho foi apresada e os tripulantes foram feitos prisioneiros. A maioria morreu em cativeiro e apenas 4, incluindo Gómez de Espinosa, regressaram a Castela em navios portugueses, nos primeiros meses de 1527.

Entretanto, Elcano, na Victoria, conseguiu evitar encontros com os navios portugueses e arribou a Cabo Verde em Julho de 1522, para um inadiável reabastecimento. Antes de continuar a viagem para Sevilha, 13 dos seus tripulantes foram aprisionados pelos portugueses, mas foram posteriormente libertados e regressaram a Castela em Outubro.

Quando no dia 8 de Setembro de 1522 a nau Victoria aportou a Sevilha com 18 tripulantes a bordo, tinham decorrido três anos e um mês desde a partida daquele mesmo local. Tinham percorrido uma distância que equivalia a quase duas voltas ao mundo em linha recta e o cravinho que traziam no porão deu para pagar os gastos de toda a expedição e gerar um pequeno lucro.

Conclusão

A sorte, ou a desgraça, de Fernão de Magalhães, de Juan Sebastián de Elcano e de todos os que realizaram tão longa e extraordinária viagem traz à memória um ditado marinheiro do século XVI: “O mar é como uma mina onde muitos se tornam ricos, mas infinitos mais jazem sepultados.”

Mas sobre Fernão de Magalhães, afigura-se oportuno recordar o que Antonio Pigafetta escreveu no relato que entregou a Carlos V:

Ele morreu; mas espero que vossa ilustre alteza não permita que a sua memória se perca, tanto mais que vejo reavivada em vós a virtude de tão grande capitão, já que uma das suas principais virtudes foi a constância na mais adversa fortuna. No meio do mar, ele foi capaz de suportar a fome melhor do que nós. Mais versado em cartas náuticas, conhecia melhor do que qualquer outro a verdadeira arte da navegação, da qual é uma prova certa de que sabia pelo seu génio, e pela sua intrepidez, sem que ninguém lhe tivesse dado o exemplo, como tentar a circum-navegação do globo, que ele quase completou.

Apesar de tudo o que já foi escrito sobre a viagem de circum-navegação da nau Victoria ao serviço do rei Carlos I de Castela e Aragão, conde de Barcelona e imperador Romano-Germânico Carlos V, se queremos lembrar o que parece mais relevante, ou seja, o uso rigoroso e disciplinado da ciência e das tecnologias náuticas e dos conhecimentos de cartografia e astronomia adquiridos e acumulados por navegadores portugueses ao longo de quase um século de expansão marítima, a descoberta de um Estreito navegável no extremo meridional da América do Sul, a travessia do Pacífico e a perícia, a capacidade de organização e liderança de um navegador português, falemos acima de tudo de Fernão de Magalhães e do seu feito.

Jorge Bettencourt
Janeiro de 2020


[1] O poeta Luís de Camões celebrou esses feitos n’Os Lusíadas. Onésimo Teotónio Almeida disse um dia que tinha começado a gostar d’Os Lusíadas pelo Canto V, quando percebeu que Camões contava a viagem de Vasco da Gama a partir da sua própria experiência de navegação para a Índia a bordo da nau S. Bento. Se fosse professor de Português ou de História, começaria exactamente por aí, por falar do Canto V como a narrativa de uma viagem bem real. E lançaria um desafio aos alunos: investigarem e discutirem se a viagem que Camões descreve foi realmente a de Vasco da Gama ou uma outra segundo uma rota diferente.

[2]Ruta diaria de la expedición de Magallanes – Elcano”, por Tomás Mazón Serrano. http://www.rutaelcano.com. Primeira publicação em Junho de 2017.

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