Aos Cem Anos por Jorge Bettencourt

A VINGANÇA

O miúdo não tinha nada contra os polícias. Apesar do jogo do foge e esconde-te ao grito – “Olha o Chui!” – quando jogava a bola na rua com os amigos, não sentia qualquer razão para temer ou não gostar dos cívicos gordinhos que passavam pelas ruas do bairro.

Até que um dia, no regresso de um passeio dominical com os Pais e a Irmã no Fiat 600, um polícia sinaleiro, ali para os lados do Saldanha, mandou o Pai1 encostar e parar o carro. Pediu os documentos, mirou-os e remirou-os, e disse ao Pai que saísse do carro e o acompanhasse. Depois de uma longa conversa, o Pai voltou com o polícia e pediu ao miúdo e à irmã que se encostassem para o polícia se sentar no banco traseiro, ao lado deles.

Depois de uma manobra complicada, o corpulento cívico lá conseguiu vencer a estreita passagem deixada pelo banco dianteiro e alapou-se em quase toda a largura do banco. O miúdo ainda tentou tirar a laranja que tinha ficado para trás, mas não foi a tempo. O polícia aterrou pesadamente sobre o citrino e os irmãos só puderam olhar um para o outro e segurar o riso.

O Pai explicou a inusitada boleia ao polícia. Não sabia que a carta de condução tinha data de validade, tinha caducado há um mês e iam à esquadra resolver o assunto. O polícia assegurou que era uma coisa simples e rápida, mas depois de entrarem na esquadra, o Pai já não voltou.

Para grande aflição da Mãe e espanto dos miúdos, souberam depois que o Pai ia ficar preso pelo crime grave de conduzir com uma carta fora do prazo de validade. Voltaram para casa de táxi e viveram horas dramáticas até que o Pai foi libertado no dia seguinte, depois de uma noite passada numa espelunca sem condições.

A partir daquele dia o miúdo passou a olhar os polícias de maneira diferente: sempre que passava por um deles, ria-se.

É que se lembrava da laranja esborrachada no imenso rabo do polícia quando, após várias tentativas, conseguiu finalmente sair do banco traseiro do Fiat 600.

E assim se vingava da maldade que fizeram ao Pai.

Jorge Bettencourt, maio de 2019

Aníbal Jardim Bettencourt, nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, em 6 de Junho de 1924. Casado com Maria da Conceição Martins Bettencourt, tiveram dois filhos, seis netos e doze bisnetos. Faleceu em 16 de setembro de 2015, em Cascais.

Leave a comment