Homenagem a José Enes

Em circunstâncias muito especiais, desejo ardentemente partilhar a homenagem ao meu querido Dr. José Enes.

Aqui a sua Silveira no sopé daquele beijo profundo atirado ao céu na volúpia da lava, montanha destino, sonhos e apelos, montanha farol, bússola de mareantes, cai do céu (Vasco Pereira da Costa), por vezes amortalhada por espessa venosidade ou com fiapos deslizantes como fossem anjos de branco vestidos em romaria ou totalmente esbelta, esplendorosa, desafiante, apelativa.

José Enes é um filho genuíno desta montanha. Um filho querido, um filho insigne.

A minha intervenção é simplesmente testemunhável.

O primeiro sentimento em relação ao Mestre foi de admiração.

No recreio jogava ao voleibol com os alunos. Era um exímio praticante e um treinador de excelência e um grande estratega.

O seminário, sob a sua orientação, tinha uma equipa imbatível a nível de Ilha. Os adversários faziam cinco, seis pontos em cada sete.

Lamentava José Enes o facto de os seminaristas, homens feitos, terem de jogar com calças pretas e camisa branca de mangas compridas. Eram as orientações férreas de quem mandava. Um dia tudo havia de mudar.

O segundo sentimento da minha parte em relação ao meu querido Dr. José Enes foi de veneração. Mestre de filosofia inculcava nos alunos o gosto pela disciplina e relevava sempre o valor do pensamento.

No meu curso de filosofia tive como professores, além de José Enes, Caetano Tomás, Cunha de Oliveira e Francisco Carmo.

Foi um curso de ouro.

José Enes era acessível, recebia no seu quarto para esclarecimentos e conversas relativas com um e ela particularidade. Batíamos à porta e só muito tempo depois aparecia: “Entre”. Estava absorto nos seus pensamentos.

O terceiro sentimento em relação ao meu querido José Enes foi de libertação. Um mundo novo. Acabaram-se as filas, saíamos em grupos e ele estava sempre presente num grupo. Todos o queriam por era um encontro fantástico porque era um encontro de aprendizagem.

Certo dia chamou-me e disse: “Serpa, junta aí a malta do Pico porque vamos aproveitar o passeio para ver a nossa gente”. Ficamos intrigados porque não sabíamos quem era a nossa gente. Chegados ao Pátio da Alfândega, rumamos até ao Porto Pipas onde estava acostado o iate “Santo Amaro”.

Entrámos. Foi uma festa. Petiscamos lula e chicharro, bebemos uns copos de vinho, cantámos, falámos muito do Pico, dos seus problemas, das viagens de risco, e para mim que vivi no Pico, sempre que encontrava alguém da marinhagem, era uma festa.

Foi como assistente do clã do seminário que ele encheu o meu coração e moldou parte da minha vida.

José Enes repetia muitas vezes esta imagem com um tom de alguma severidade: “A vida é como um rio que tem sempre duas margens. Nós aqui vivemos numa margem e não sabemos nada da outra para onde iremos trabalhar”.

O seu esforço foi sempre no sentido de nos levar à outra margem, de conhecer os seus problemas, de conviver  e de apreender a vivência de quem lá labutava.

Tive o prazer e a honra de ser chefe de Escutismo em dois acampamentos na zona da Lagoa das Furnas. Ao redor de uma fogueira cumpríamos os ditames de Baden Paul: “Sempre pronto”. Recordo que pedíamos ao nosso Assistente que cantasse a Granada. Fazia-o com grande esforço, mas com um desafino tremendo.

José Enes trouxe aos Fogos do Conselho gradas figura da sociedade micaelense e muitos de fora dos Açores. Eram conversas entusiasmantes que enriqueciam as nossas vidas.

A autonomia açoriana tem muitos pais, mas o meu querido Dr. Enes foi o grande pai da antecâmara do regime que agora vivemos.

As Semanas de Estudo foram algo de extraordinário no meio açoriano. Pelo que analisavam e pelo que preconizavam.  Recordo a tese de José Enes em relação à governabilidade duma futura região autónoma. Ele achava que devia haver uma Secretaria Regional em cada uma das Ilhas dos Açores. Seria o embrião seria o fermento na massa para despoletar um desenvolvimento que seria crucial.

Infelizmente o estoirar dos distritos, um cancro para algumas Ilhas, não resolveu o problema. Manteve-se a trilogia sagrada e as Ilhas capitalinas continuam a ser altamente beneficiadas.

José Enes era utópico. Ele percebeu, melhor que ninguém os Açores.

Grande poeta eternizou “A montanha do meu destino”.

“Quando me vires morrer”. Meu querido Dr. José Enes, a montanha maravilha nunca te viu morrer. Porque nunca morreste, nunca morrerás. O teu pensamento tem um toque de imortalidade.

Felizes os que partem e deixam estrelas sobre a sua estrada.

Meu caro, tu és uma estrela cintilante a apontar o rumo e os passos do caminho. Moldaste o meu carácter e eu procurei cumprir a missão.

MUITO, MUITO OBRIGADO.

Manuel Goulart Serpa

(texto lido pelo jornalista José Gabriel Ávila)

O PBBI agradece à Luso-American Education Foundation o apoio a vários projetos inluindo esta plataforma de artes e letras.

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