Freguesia dos Altares, na ilha Terceira numa “história de factos”

O LIVRO “ALTARES da MEMÓRIA – O advento das micro-histórias na periferia das periferias”, de sua autoria, é apresentado a 11 deste mês. O que procura fixar nesta obra?

Antes de mais gostaria de agradecer o interesse do DI nesta monografia. Para responder a estas perguntas, várias vezes me socorri à nota introdutória. Quando em outubro de 2016 os membros da Junta de Freguesia de então me convidaram para escrever um livro sobre a freguesia dos Altares, estaria longe de pensar no desafio que me esperava. A freguesia dos Altares configurava-se apenas como uma freguesia rural a noroeste da ilha Terceira, longe dos centros de decisão, confinada, durante séculos, à sua sorte e às suas gentes. Engane-se o mais incauto de pensar que fazer a história de uma freguesia é de somenos importância. O estudo da história local é também o estudo da história Universal, que se define como um conjunto de pequenas histórias locais que compõe um imenso puzzle global. Cruzar estes dois métodos é desafiante, mas também surpreendente. Os informantes revelaram factos e acontecimentos das suas vidas que podemos transpor para as vivências comunitárias. Muitas dessas revelações inéditas fazem-nos ter uma visão mais realista dos acontecimentos. Nesse sentido, não me coibi de relatar o bom e o menos bom. Esta não é uma história só de feitos heroicos. É uma história de factos. Tem descritivos dolorosos. Alguns perturbadores. A opção de utilização de linguagem vernácula, alcunhas e calão é também da minha inteira responsabilidade.

Ao mergulhar nas fontes, o que encontrou de pouco conhecido ou mesmo desconhecido na história da freguesia? Também foi possível desconstruir mitos que muitas vezes vão passando por história?

O objetivo foi apresentar tudo o que encontrei na parca bibliografia, na imprensa escrita, nos ofícios dos regedores encontrados nos Arquivos da Auditoria Administrativa de Angra do Heroísmo, nos Arquivos Paroquiais, Posturas Camarárias, no Arquivo do Passal com manuscritos ainda inéditos do Pe. Inocêncio Enes e Arquivos Pessoais e juntar tudo isso, na tentativa de registar o máximo possível acontecimentos particulares e comunitários. Apesar de o livro ter mais de 550 páginas é apenas um pequeno contributo do muito que se poderá ainda escrever. Desconstruir esses mitos das histórias filtradas e higienizadas por um regime, não faz jus aos acontecimentos efetivos. O método de ensino uniformizador das geografias e das suas figuras ilustres, não contribuiu para a identidade dos povos, nem para o seu cabal conhecimento. Quantos de nós, nas ilhas, não aprendemos sobre os nossos reis (distantes), sobre as nossas figuras santas (poucas), sobre os nossos heróis (de conveniência), sobre rios nunca atravessados e sobre linhas de caminhos-de-ferro que apenas alimentavam os feitos e os egos da propaganda estatal, esquecendo, propositadamente, as gentes e os lugarejos insalubres que os circundavam, cujo rosto macilento cobriam de vergonha? Para a história efetiva desses lugares, raramente nos apoiamos nos documentos, mas sim nos testemunhos orais que, para o bem ou para o mal, são aquilo que o indivíduo ou grupo se lembra ou quer contar. Carecem, por vezes, nestes testemunhos opiniões isentas. Há que filtrar ou, eventualmente, cruzar com a parca documentação existente, sendo essa uma das principais razões para acabar tão esquecida, por ser considerada “menor”, ou fora do âmbito da história.

Quem constrói a história dos Altares? Figuras? O povo em movimento? Qual o lugar de cada um na narrativa que elaborou?

As pessoas e sempre as pessoas, anónimas para a História Geral serão sempre os meus heróis nesta História Local. São os feitos, os relatos, as histórias, as curiosidades, as façanhas e historietas, mas também os seus mitos, lendas, superstições, sonhos, pesadelos, adágios, adivinhas e rezas que este livro se alimenta. Claro que também há figuras ilustres e conhecidas. As suas instituições de cariz cultural, religiosas e desportivo. Cada um tem o seu lugar nesta pequena monografia. Avelino Freitas de Meneses no seu ensaio “Antigamente Era Assim!”1 escreve “A História Local é o melhor meio de reelaboração da História Geral. Quer isto dizer que em vez de cingir a fronteiras da história particular, a investigação local escancara as portas à universalidade” (MENESES, 2020, p. 25). Mais à frente este investigador e historiador faz uma crítica ao que tem sido uma historiografia açoriana, fortemente sustentada nas ilhas maiores ou nas suas três cidades: “Todos os estudos relevam sempre Angra, Ponta Delgada e Horta, mas omitem quase por completo os Altares, os Ginetes e Pedro Miguel” (MENESES, 2020, p. 27). Não por acaso, a freguesia dos Altares é aqui referida neste ensaio. Raros estudos se debruçaram sobre ela, não pela sua pouca ou (aparente) irrelevante importância, mas sobretudo pela distância geográfica e social ao qual esteve votada ao longo de vários séculos de esquecimento. É esse esquecimento que se pretende, com este livro, colmatar. A história da globalização é um mito. A globalização é um conjunto de regionalizações.

O que ganham as pequenas comunidades quando se reveem ao espelho da sua história?

As comunidades ganham consciência do seu existir, do seu modo de pensar, do porquê das suas tradições. Ganham sobretudo esperança, reconhecimento e orgulho. Ganham também um sentido comunitário, paz e harmonia social. Todos querem pertencer a algo e conhecer a sua história é conhecer os ramos de um mesmo tronco. É de certa maneira saber de onde se vem e ter a coragem de se assumir quem se é. Quem não conhece o seu passado, não se orgulha do seu presente. Eu orgulho-me de ter vindo de um povo que jurava sobre o adro da igreja não revelar os segredos de transformação do pastel que ia para a flandres. Eu orgulho-me do património quinhentista da igreja de São Roque; orgulho-me das milícias que se formaram; orgulho-me dos mancebos e dos soldados que foram para a guerra; orgulho-me das mulheres que amamentaram os seus filhos e os filhos dos outros; orgulho-me dos carroceiros que atravessavam o mato todos os dias em viagens difíceis; orgulho-me dos cabouqueiros e dos plantadores da queimada; orgulho-me dos justiceiros dos baldios; orgulho-me dos benfeitores que compraram sinos, sacrários, santos e rosários; orgulho-me das duas Bibliotecas Fixas, sendo uma da Gulbenkian; orgulho-me do pioneiro da aviação nos Açores; orgulho-me das viúvas e dos doentes; orgulho-me das mulheres e dos homens que em crianças não comiam carne nem bebiam leite; orgulho-me dos que faziam mezinhas e curavam feridas; orgulho-me de todos os resistentes que taparam muros, construíram casas e pontes, chafarizes e pias. Eu orgulho-me de tudo isso!  Este pequeno contributo é, apenas, o começo.

Entrevista a Assunção Melo, investigadora.

in Diário Insular, José Lourenço-diretor

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