Álamo, seis vezes pensei em ti*

Álamo, a primeira vez que pensei em ti eras um jovem dramaturgo já com uma invejável carreira literária e estavas na Califórnia com a peça de teatro Quando o Mar Galgou a Terra.  Já tinhas pisado solo californiano, porque aqui tens quase toda a tua família e até chegaste a pensar em fazer a Califórnia terra tua.  Mas, como te disse o teu pai: Boi em terra alheia nem vaca é.  Quase quatro décadas se passaram e tu, que és do Raminho, mas também és de Tulare, que és da Terceira, mas também és da Califórnia, que és dos Açores, mas também és da nossa Diáspora em todo o hemisfério americano,  tens sido uma presença importante na mesa cultural das nossas comunidades, a quais, são sempre mais abundantes graças à tua imaginação, à tua criatividade, à tua dedicação e ao teu inquebrável compromisso com todos aqueles que um dia tiveram de sair das suas ilhas à busca da terra prometida, porque tu nunca viste a comunidade da Califórnia com o folclorismo que sempre rodeou o emigrante, tu desse muito cedo que entendeste o fenómeno das “sopas do Espírito Santo com Coca-Cola.” Tu que já na década de 1980 participaste e contribuíste para os congressos da Luso-American Education Foundation;

Quando pensei em ti, pela segunda vez, estávamos no ano de 1990.  Vieste a Tulare, pacata cidade do Vale de São Joaquim, geminada com Angra do Heroísmo desde 1966, para ministrares um curso de teatro.  Dúzia e meia de emigrantes, de várias gerações esperavam, com ansiedade os teus ensinamentos.  E nesse mesmo ano, porque nunca foste de usar “calções de ideias curtas” deste a alma e o coração ao lançamento do simpósio literário/dramático Filamentos da Herança Atlântica, que como sabes, foi durante uma dúzia de anos, o único acontecimento cultural que trouxe à comunidade da Califórnia, e diria a toda a América do Norte, de uma forma consistente, uma amálgama de escritores, poetas, pintores, atores e músicos.  Tulare, graças a ti, meu caro Álamo, foi a Meca da aproximação, através das artes, dos Açores com a sua diáspora.  Contigo o simpósio produziu uma rica coletânea de trabalhos, em vários géneros literários e levou ao mundo americano a grandeza da criatividade açoriana.  A dúzia de anos dos simpósios de Tulare foram ainda anos de crescimento em atividades culturais, nas várias comunidades que nos levaram, graças a ti a termos mais do que um bodo de leite e uma chamarita. Com o pretexto do simpósio a Califórnia realizava lançamentos de livros, sessões literárias, saraus culturais e criaram-se estruturas que ainda hoje são basilares para a metamorfose que já há muito nos tinhas avisado;

Quando pensei em ti, pela terceira vez, estávamos a lançar o único romance na literatura açoriana que destaca as histórias da nossa emigração para o Eldorado americano.  O teu/nosso Já Não Gosto de Chocolates é uma obra inigualável na literatura açoriana.  É o retrato, e o hino, a um povo que “banhava o cérebro e os desejos num avião da pan-américa.”  Ao longo das suas 209 páginas contaste-nos, com a linguagem poética que só tu sabes usar, os dissabores e os triunfos das nossas vivências, da presença do arquipélago, todos os dias em terras californianas.  Os Sylvia’s são arquétipo de um êxodo emigratório com profundas marcas no arquipélago. Os Antónios que se tornaram Tony, Maria de Lourdes que se tornaram Milu, Margaridas que se tornaram Maggie’s e José’s que se tornaram Joes, são representativos do poder de adaptação do nosso povo, que tu, magistralmente, soubeste captar.  A geração da Carta de Chamada, está retratada com uma dignidade que só a tua poesia saberia confecionar.  A literatura açoriana ficou muito mais rica com esta obra, que em boa hora foi traduzida para inglês a fim de chegar às novas gerações de açor-descendentes.  Porque tu, melhor do que ninguém, compreendes que as novas gerações precisam desta ligação.  Tu que sempre compreendeste que os rebentos da tua/minha gente não podem ficar presos à comunidade como “uma coleira de cão”;  

Quando pensei em ti, pela quarta vez, também “eras o contrário do movimento” e davas vida à comunidade que todos queríamos construir à beira do Pacífico.  As tuas viagens eram verdadeiros vendavais culturais que muitos nos enriqueceram.  Todos os anos estavas disponível para contribuir para uma associação cultural, para um instituto universitário, para as aulas de português numa escola ou numa universidade, para um órgão da comunicação social, para elevar o trajeto cultural das nossas vivências, cada vez mais americanas e menos açorianas.  Tu eras o nosso cordão umbilical, que esticava a cada comunidade.  Estavas presente, contribuindo com o teu saber, com a tua arte, em todo o quotidiano comunitário, desde o trabalho nos bastidores em muitas publicações que viram a luz do dia neste estado com brilho por motivos do teu trabalho minucioso, até ao curso que deste sobre a tua obra e a literatura açoriana em Berkeley – desde os recitais que ergueste com alunos que começavam a descobrir a língua portuguesa até à tua eterna paciência e o teu talento único em tornares os pequenos eventos comunitários, em sumptuosas celebrações culturais; 

Quando pensei em ti, pela penúltima vez, continuavas a contribuir, desassombradamente, sem complexos nem rodeios, para que a comunidade da Califórnia, parafraseando Pedro da Silveira, não se perdesse nas suas “abundâncias”.  Escrevias duas biografias de gente nossa, que neste estado, fez fortuna, mas também serviu a comunidade.  Gente que trabalhou para a açorianidade além-fronteiras.  Molhavas, ainda mais uma vez, a tua profunda e profícua pena no íntimo comunitário para nos dares poemas e contos com as tuas/nossas vivências.  Colaboravas, com a generosidade e o altruísmo que há muito nos habituaste, em congressos, recitais de poesia, seminários, colóquios, formação de professores, apresentações de livros e palestras.  E deste-me a felicidade eterna de colaborar na coletânea que a tua cidade de Angra publicou com excertos da tua obra.  Porque o teu coração é assim, e a tua obra é uma inesgotável fonte de criatividade. E estou muito grato que o “nosso deus feito ilhéu” permitiu que tu desses à tua outra freguesia, a Tulare, um belo poema.  Ainda bem que os teus “sonhos esticados” chegaram aos confins da nossa emigração.  Hoje somos mais comunidade porque tu nos tens acompanhado e daí que é sempre um momento de júbilo pensar em momentos que foram únicos, porque vinham das entranhas de uma comunidade que quianda hoje te parecia – quando recebeste a distinção de membro honorário da mais antiga geminação portuguesa com uma cidade americana, Tulare/Angra, quando a Luso-American Education Foundation te homenageou com o galardão Pontes entre os nossos dois mundos (Bridge our Two Worlds Award) ou quando a associação estudantil Society of Portuguese-American Students te ofereceu o seu prémio literário;  

Quando pensei em ti pela última vez, seja o diabo surdo, leio-te de novo, porque tal como escreveu Calvino: “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer.” E cada vez que te releio, aprendo algo de novo.   E entrelaço a leitura da tua obra com a tradução da tua poesia para a língua dos teus e meus descendentes.  A riqueza da tua obra tem que, forçosamente, estar na língua dos teus sobrinhos-netos e de todos quantos têm ligações ancestrais aos Açores.  Só sentirão a açorianidade com a nossa literatura e a tua obra é essencial.  Fico feliz que estamos a celebrar os teus 79 anos.  Ao contrário do Manuel não há em ti um “cacho de esperanças murchas,” porque, felizmente, tu continuas a semear cultura desde os Açores até à Califórnia.  Fico feliz porque “pendurado no alpendre” está uma amálgama de obras e eventos, que pela tua mão, marcaram a nossa comunidade.  Nem imagino a Califórnia açoriana sem os teus indeléveis contributos, sem um ar da tua graça;

Álamo, aos 79 anos o melhor é pensarmos nos projetos que ainda estão para vir, nos poemas e nos romances que ainda vais escrever, nos contributos que ainda tens para dar à comunidade da Califórnia que continua a precisar de ti.  Pensemos nos “rebuçados” que mereces.     

Diniz Borges

*do poema Manuel seis vezes pensei em ti de Álamo Oliveira

Álamo Oliveira comemorar o seu septagésimo-nono aniversário neste dia 2 de maio de 2024.     

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