Viver para Descansar dos Sonhos:* Notas Sobre Um Feriado e as Lutas pela Justiça em Terras Americanas

“Tenho a audácia de acreditar que os povos

em todo o lado podem ter três refeições por dia

 para os seus corpos, educação e cultura para as suas mentes,

e dignidade, igualdade, e liberdade para os seus espíritos”.

Martin Luther King Jr. do discurso de aceitação do Nobel da Paz em 1964

Todos os anos, milhões de americanos prestam homenagem à memória do Dr. Martin Luther King Jr.  Todos os anos, na terceira segunda-feira do mês de janeiro, a América comemora, com um feriado nacional, o grande impulsionador do movimento dos direitos civis, um dos verídicos defensores dos grupos mais marginais da sociedade.  Daí que a comunicação social americana tenha transmitido, ainda mais uma vez, como o faz, religiosamente todos os anos, alguns pequenos excertos dos seus discursos mais empolgantes e mais famosos, particularmente o: I Have a Dream (tenho um sonho).  Há que salientar, que a mesma comunicação social, que hoje fala do seu legado, muitos para cumprir calendário, hostilizou-o durante a sua vida.  Em momentos chave na sua jornada e luta constante pelos direitos civis, e a paz mundial, os órgãos da comunicação social norte-americanos trataram-no com adversidade e até mesmo algum vitupério.  É que nem toda a gente quis, ou ainda quererá, ouvir a autêntica mensagem de Martin Luther King.  Ainda há quem prefira, como escreveu Natália Correia: um ar de frutos sossegados.”

            Foi em 1983 que um relutante Ronald Reagan promulgou a lei que constituiu a terceira segunda-feira de janeiro como um feriado nacional em homenagem a Martin Luther King.  E fê-lo depois da legislação ter estado quase 15 anos no Congresso e de, finalmente, haver uma maioria que a tornaria em decreto-lei, sem a necessidade do carimbo presidencial.  Este é um dos feriados menos respeitados nos Estados Unidos, mostrando o racismo que, infelizmente, ainda se vive em vários sectores da sociedade norte-americana.  Promulgada em 1983, a lei só entrou em vigor em 1986, e só foi aceite por todos os estados da união americana no ano 2000.  

            Apesar de ser um feriado nacional, são muitos os estabelecimentos do serviço público que recusam fechar as suas portas.  Um estudo efetuado há 10 anos por uma agência sediada em Washington, a BNA, Inc., indica que cerca de 30% dos estabelecimentos públicos continuam com as portas abertas no feriado de Martin Luther King.  E no sector privado nem se fala.  O mesmo estudo aponta para menos de três, em cada dez estabelecimentos, que fecham as suas portas na terceira segunda-feira de janeiro em memória do histórico líder afro-americano.

            No âmago desta celebração, o feriado continua a ser um dia de festa para os afro-americanos, alguns genuínos interessados num verdadeiro entendimento entre todos os grupos étnicos, uma minoria progressista e meia dúzia de políticos (alguns extremamente oportunistas) que precisam dos votos desta comunidade.    A América, não africana, particularmente a ango-saxónica, tem, sistematicamente, ignorado este feriado e as suas celebrações.  Basta ligar-se a televisão para verificar que continua a ser um dia celebrado pelos negros do país e que estamos muito longe da mensagem contida num dos famosos discursos de Martin Luther King, de que ainda um dia teríamos uma sociedade em que as pessoas não seriam julgadas pela cor da sua pele, mas sim pelo conteúdo do ser carácter.  Porque as injustiças permanecem.  Um estudo à aglomeração de riqueza nos Estados Unidos, frito pela Brookings Institute, encontra provas de disparidades raciais espantosas.  Em 2014 com um valor de $171.000, o património líquido de uma típica família branca era quase dez vezes superior ao de uma família negra ($17.150).  Tal como escreve o Brookings: “as lacunas na riqueza entre as famílias negras e brancas revelam os efeitos da desigualdade e discriminação acumuladas, bem como as diferenças de poder e oportunidade que podem ser traçadas desde o início desta nação. O fosso de riqueza entre Negros e Brancos reflete uma sociedade que não tem e não oferece igualdade de oportunidades a todos os seus cidadãos.”

Hoje, mesmo após a América ter tido um presidente afro-americano Barack Obama, durante oito anos, os indícios mostram-nos que ainda existe uma grande disparidade entre os americanos negros e outras raças e etnias.  Em 2019, já no fim do mandato de Obama, uma família branca na classe média americana detinha $188.200 em riqueza, ou seja 7,8 vezes a da típica família negra que é de apenas $24.100.  Um melhoramento, em relação ao passado, mas muito restringido, quase até insignificante. 

            Ao celebrar-se o feriado, coloca-se, fora de contexto, muitas das afirmações e dos aforismos de Martin Luther King.  A comunicação social, outrora hostil ao discurso progressista do dirigente afro-americano, tenta compendiar toda a sua obra, todo o seu labor em prol da justiça e da igualdade, no famoso discurso “I Have a Dream” , pintando-o como um simples sonhador.  Aliás, nos círculos do poder prefere-se o Martin Luther King Jr. de 1963, que se limitava à campanha pelos direitos civis, do que o de 1968 que entrava, profundamente, em questões relacionadas com a igualdade, a justiça, e a paz.  O Martin Luther King que nos disse:   “Temos que construir uma sociedade em paz consigo própria, uma sociedade que possa viver com a sua consciência”.

            Hoje, quando a América celebra o feriado (ou mal o celebra) fá-lo distanciando-se do discurso que em 1967 fez na igreja de Riverside em que enfatizou quatro pontos cruciais:  que o militarismo americano acabaria por destruir a guerra contra a pobreza; que jingoísmo americano alimentava a violência, o desespero e desintegração dentro dos Estados Unidos; que a utilização de gente de cor para lutar contra outros povos de cor fora dos EUA era uma manipulação dos pobres, e que os direitos humanos tinham que utilizar o mesmo peso, e a mesma medida, em várias partes do globo.  Uma mensagem que não convém recapitular.  É muito mais suave ficar-se pela alegoria do sonho.  Aliás, quando King começou a discursar contra a guerra do Vietname e a utilizar vocábulos como “socialismo democrático” o New York Times e o Washington Post, os dois grandes jornais americanos, rotularam-no de radical e extremista, e a própria administração de Lyndon Johnson classificou-o, internamente, como personna non-grata. 

            Em 1968, Jesse Jackson, outra figura menos querida da elite governativa deste país, escreveu um ensaio sobre a importância de se celebrar a mensagem integral do falecido líder.  O ensaio de Jackson preconiza uma leitura completa do trabalho de Martin Luther King:  “Há que resistir à memória curta e anímica da comunicação social deste grande homem.  Pensar-se no Dr. King meramente como um sonhador é uma grande injustiça à sua memória e ao sonho em si.  Porque será que muitos políticos insistem em que King era um sonhador?  Será porque querem que acreditemos que os seus sonhos se tornaram em realidade, e daí que deveríamos celebrar em vez de lutarmos?  Há que lutar para se preservar a substância e a integridade do legado do Dr. King.”

            É esse legado, que começou com o movimento dos direitos civis, mas que cedo se amplificou a todos os ramos da justiça social, ao fim da pobreza económica e intelectual, ao poder que as massas populares possuem, ao combate contra os monopólios da comunicação social e ao imperialismo americano (palavras que não tinha receio em utilizar) que está, completamente esquecido, ou melhor, é relembrado por uma minoria, a qual cada vez tem menos voz no discurso publico estadunidense.

            Cinco décadas (20 de janeiro de 1986) depois do Presidente Ronald Reagan ter expressado dúvida, ambiguidade e até alguma adversidade contra Martin Luther King, milhões de norte-americanos ainda demonstram os mesmos sentimentos sobre o feriado, e outros milhões desconhecem, por completo, o somatório, a vitalidade e a pertinência da sua mensagem. 

Pena que sejam aqueles que mais beneficiariam do seu sentido de equidade, os que, por motivos da mera cor da sua pele, ainda escolhem ignorá-lo. Se não o fizessem, indubitavelmente que estaríamos muito mais perto do que profetizou como um tempo em que: “teríamos um oásis de liberdade e justiça.”

*de uma frase do escritor moçambicano Mia Cout

Diniz Borges

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