Os deuses tomaram-se de fúria e começaram
a soprar mais do que era necessário e suposto,
e o mar revoltou-se sobremaneira.
Volta Aos Açores Em Quinze Dias, José Pedro Castanhei

Algumas advertências, só por assim dizer, ao autor deste inusitado Volta Aos Açores Em Quinze Dias: Diário De Bordo De Uma Viagem Para (Não) Esquecer, José Pedro Castanheira, cuja seriedade no seu jornalismo dos tempos de O Jornal e depois da sua longa carreira no Expresso até à sua recente e suposta aposentação, autor ainda de vários e marcantes livros, que ele nem cumpriu (mesmo que involuntariamente) a promessa feita a um corvino há uns bons anos, nem levou a sério o aviso de Onésimo Teotónio Almeida, que prefacia este livro. Em trabalho na nossa mais pequena ilha, tinha-lhe sido pedido que não falasse mal do Corvo, mas que também não falasse muito bem para não provocar mais uma avalanche de turistas. O autor auto-denomina-se continuamente neste seu Diário de “escriba”, depois da sua fulgurante carreira em dois dos mais importantes e históricos jornais do nosso país. De nada valeu. Só que o seu humor ante desafios açorianos diversos terão o riso e muito agrado do leitor, um virar-páginas no prazer de cada frase e entrada sobre estes seus dias de passagem e repouso nas ilhas, que ele tão bem conhece há décadas, e no mar dos Açores que o fez balançar inesperadamente no vento e em ondas de quatro metros a bordo do veleiro Avanti (alugado à empresa Sail Azores), na companhia de familiares e do comandante amigo, que vou nomear um pouco mais adiante. Os nossos conterrâneos do outro lado do mar que vão ler este magnífico Diário terão uma de duas reacções: visitar as ilhas imediatamente, ou vir cá desafiar os deuses do mar e do mau humor, todos eles lembrados aqui. “Ora, qualquer açoriano, – escreve Onésimo Teotónio Almeida no prefácio a Volta Aos Açores Em Quinze Dias, intitulado “Ala Bote” – por mais crente que seja no Santo Cristo e no Espírito Santo, desconfia de boletins meteorológicos. Diz-se que aqui acontecem as quatro estações num dia, só que o vento e a chuva ocorrem em qualquer uma, sobretudo em todas”. Por certo que José Pedro Castanheira foi “surpreendido” por tudo o que ele já conhecia, mas o leitor açoriano depara-se nestas páginas com outra visão, na qual o mar manso ou revolto se integra perfeitamente no que vai nas nossas ruas, nas nossas cidades, nos nossos sítios, sem necessariamente darmos por nada, a habituação fazendo-nos assobiar para o lado, guarda-chuva na mão.
O ângulo crítico pertence a nós residentes, a descoberta de outras belezas e originalidades são por outros ainda mais apreciadas, especialmente quando um escritor interliga cada uma dessas nossas ruas e cidades à História e a estórias que outros já viveram e alguns escreveram pelos mais inusitados olhares e entendimentos. Castanheira sabe tudo isso, e menciona-os de quando em quando, desde Raul Brandão a Vitorino Nemésio, esses continentais e ilhéus que nos definiram e devolveram a identidade da nossa geografia e alma. O autor brinca com os géneros literários e demais relatos, perfeitamente consciente que o suspense da sua aventura marítima (não-trágica) está frente a um bravo povo que treme sem medo diária e repetidamente em São Jorge e nas outras ilhas, reerguendo sem parar tudo que é a sua vida. Falar do arquipélago açoriano é falar obrigatoriamente do mar que tanto nos aprisiona como nos dá asas, os seus vulcões debaixo de água e da terra a génese da criação e da morte à espreita.
Volta Aos Açores Em Quinze Dias foi uma viagem planeada em Lisboa, e adiada logo que o coronavirus nos encerrou em casa em 2020. Foi concretizada em Maio deste ano, pelo autor e alguns dos seus familiares mais próximos, um sobrinho, Nuno Torka Castanheira, Nuno Castanheira, seu irmão, Afonso, seu filho, e o comandante (skipper) João Blasques. A partir da marina da Horta iriam – “iriam” – a sete das nove ilhas, ficando de fora as Flores e o Corvo, suponho que por razões de mares, lonjura ou tempo. Quando partem do Faial e de Santa Maria rumo à Graciosa enfrentaram uma tempestade à moda do mar açoriano, que lhes fez regressar a meio, com o veleiro em dança e os todos os esforços da tripulação para não mergulharem contra a sua vontade, eles e o veleiro a dar tudo contra ventos e marés. Os pormenores são dados numa escrita calma, originalmente dirigida por e-mail a amigos em toda a parte e à família em Lisboa. Num dado momento desse “bailo corrido”, nas palavras do autor, desta chamarrita marítima, o seu telemóvel cai-lhe da algibeira de um colete de guerra (que outro jornalista em campo nosso havia ostensivamente mostrado aos seus telespectadores a partir, já se sabe, do Médio Oriente), e o desespero de José Pedro Castanheira dá lugar à comédia pura de lamentações, a prosa fazendo-nos rir em voz alta quando ele insinua a nossa dependência modernaça ou vício digital. Um dos seus correspondentes entrou em pânico – eventualmente diz ter ouvido o som “glu glu glu” — porque não sabia que o telemóvel do autor do Diário estava a milhares de metros abaixo das águas atlânticas. Os quinze dias de aventura prolongaram-se, levando alguns à descoberta do “pico do Pico”, ao regresso do gin no mítico Peter Sport Café e a outras andanças nos arredores de mar e terra. José Pedro Castanheira, durante essa noite de chuva e vento entre o Faial e a Graciosa sentiu o seu organismo a fraquejar, e o diagnóstico era mesmo o covid, tendo sido confinado por especial favor num alojamento local da Horta, que mais parecia um velho hotel, e que ele diz ser do século XIX apesar do seu serviço e simpatia muito mais avançadas. Nunca lhe falta, uma vez mais, o humor e a leve ironia de uma escrita que prende o leitor de tal modo que quase ficamos sem saber se estamos a ler um romance ou o Diário que realmente é este livro. O autor repete, adivinho que com um riso dúbio, que a sua carreira de jornalista não lhe permite inventar nada. Até quando, no fim e já só na Horta (os outros tinham regressado a Lisboa), decide reescrever sobre a medonha noite de todos os desafios contra o Atlântico zangado, e foi “ouvir” os pormenores recontados pelo próprio veleiro Avanti, agora de novo ancorado e à espera de outros desafiadores.
“A presente imagem, com efeito, rasga em mil pedaços o manto de desconfiança – escreve a dada altura, e vai aqui como exemplo de umas férias perigosas – em torno do nome do nosso veleiro. É mesmo Avanti e nada tem a ver com o título de um jornal partidário que, aliás, graficamente, é complementado por um ponto de exclamação. Avanti, não é com e mas com i no fim. Palavra italiana, que significa em frente, adiante, avante, futuro vamos… Se lhe acrescentássemos um ponto de exclamação, seria Avanti!, o título de um jornal, não do extinto Partido Comunista Italiano, que se chamava L’Unitá, mas do Partido Socialista. Jornal diário, publicou-se de 1806 a 1993, ano em que o partido desapareceu praticamente da cena política – mas isso são contas de um outro rosário…”.
Bem sei que não dou conta aqui de um veleiro nas ondas, ora de calmas, ora sem aviso pega a dançar e a pular, como que lembrando aos marinheiros mais afoitos, descendentes do Infante, quem mais ordena nas questões de força radical. José Pedro Castanheira tem muito mais para dizer sobre a realidade total arquipelágica do que alguns de nós. Isto para vos dizer do meu fascínio perante os que querem ir um pouco mais além das suas origens em terra firme, ou da sua experiência de vida. O mar sempre esteve em nós, só que em livros de História, ou na memória de tragédias do país que navegou o mundo inteiro, e sem motor.
“Sendo assim, – conclui o autor com outra risada – nada mais lhe resta senão encerrar este modesto Diário, de que guardará um exemplar para memória futura, nem que seja para informação e orgulho dos seus netos, bisnetos e demais descendência. Com a esperança, ainda que ténue, de que possa vir a ser convocado para voltar a este nobre ofício pela mesma marinhagem, em viagem de cariz e objetivos semelhantes”.
Espero que sim, e tenho a certeza que também os graciosenses e, já agora, os florentinos e os corvinos. Quanto a mim, ser-me-ia grato conhecer pessoalmente – mas em terra … – um dos grandes jornalistas da minha geração e do meu país. Prometo não levar o Expresso, que para mim significa o prazer da leitura, e ao autor, não sei, a memória de muito trabalho. Volte, e volte sempre com os seus.

Vamberto Freitas, cititco literário
