Epístola a Laura – Conto de Paula de Sousa Lima

O Senhor Deus disse: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele:”

Génesis 2: 18

Eu não existo longe de você, e a solidão é o meu pior castigo.

Adriana Calcanhotto

Planava um odor natalício, volteava pela casa, pousando nos móveis, em cada objecto, envolvendo os meus sentidos. Não o sei descrever. Sempre fui parco de palavras, mas, no caso, ainda que fosse abastado delas, tal tu, Laura, não saberia descrever esse odor. Era um odor bom. E era também bom o riso das miúdas, contagiantemente alegres os seus passinhos em redor da árvore de Natal; saltitavam e tocavam ora num embrulho ora noutro: este deve ser do avô para a avó, é uma caixinha pequena, deve ser um anel, é o que o avô oferece à avó; quando formos grandes, o avô também nos vai oferecer anéis, não é, avô? Eu devo ter sorrido, sorri, certamente. Sempre foste uma avó extraordinária, Laura, eu era um avô mais ou menos: posso ser melhor, posso ser um avô melhor, posso ser um pai melhor, posso ser um marido melhor, posso ser um homem melhor, Laura, aquele que nunca fui e tu sempre sonhaste, prometo que os teus sonhos nunca mais se volverão lodo espessamente putrefacto, como tu escreveste algures, prometo que serei melhor, Laura, prometo que não volto a beber, juro.

Acho que não sinto nada, agora, aqui. A lareira esgotou-se, da penumbra não se destaca o piscar das luzes, não é possível, pois não há árvore de Natal, nem há presépio, sequer mesa posta, comprei um bolo rei, foi só, comprei-o para te fazer presente, Laura, mas tu não estás aqui, nem tu nem as miúdas nem os filhos, estou sozinho, não sinto nada. A alma extraviou-se-me, como tu dirias, escreveste isto num dos teus livros, e eu vou percebendo o que significa: é eu ser incompleto, é eu estar cingido de solidão. Vou compreendendo o que tu deixaste escrito nos livros, estar cingido de solidão é isto que agora, aqui, o meu corpo sente, vaga, imprecisamente, a minha alma também, e um e outro sentem de forma tão desmedida a tua ausência, Laura, vês como já sei usar melhor as palavras? Aprendi-o depois de já não tas ouvir dizer, li todos os livros que escreveste depois de estar longe de ti, foi uma maneira de tentar recuperar a tua presença.

Não te quero imaginar para a solidão não se avolumar mais, mas, se te imaginasse, seria sentada no chão da sala a brincar com as miúdas, devem estar crescidas, ou a acabar de pôr a mesa, daqui a pouco chegarão os teus familiares, planará um odor natalício, aqui não. Aqui sou só eu ante mim, isto também o li num dos teus livros, eu sozinho, sem sentir nada a não ser solidão, uma solidão imprecisa, vaga. Podia ligar-te, como razão daria o querer saber como vão as miúdas, mas não o farei, isso seria confrontar-me decisivamente com a lonjura que há entre nós: já não há nós, disseste, provavelmente nunca houve. Doeu-me tanto ouvir isso, Laura, mas saí de casa sem me lamentar, sem gritar que queria ficar, que não te queria perder, sem dizer: não sei viver sem ti. A verdade, Laura, é que eu não sabia que não saberia viver sem ti, sempre estiveste ali, não valorizei a tua presença, era-me vaga e imprecisa, tal esta solidão que agora sinto; a tua ausência, sim, reconheço-a, agora reconheço-a, e doí-me tanto, não fazes ideia, Laura.

Foi há três anos que senti pela última vez o odor natalício da nossa casa, da tua casa, que me sentei à mesa impecavelmente posta, que ouvi o entrecruzar das vozes dos teus familiares e dos nossos filhos, que vi as miúdas a saltitar em redor da árvore de Natal, a tocar nos embrulhos. O meu presente para ti foi um anel, confesso que por hábito to ofereci; beber também era um hábito, não quis prescindir dele: era o que faltava, faço o que quiser, bebo porque quero e gosto, participo pouco na festa porque me estou nas tintas para as tuas festas e para os teus familiares, os nossos filhos afastaram-se de mim há tanto tempo, das miúdas gosto, mas cansam-me, tu é que tens jeito para elas. Há em ti, desde sempre, uma ternura ancestral que eu não soube reconhecer e que transborda em gestos de uma beleza mágica.

Não me custou sair de casa, tu sabes, percebeste-o. Vim para longe, quis ser contente, dormi com mulheres mais muito mais novas do que tu, disponíveis e descomplicadas, todas me agradaram, mas nenhuma tinha o perfume da tua pele, acho que a tua ausência se me impôs pela falta do teu perfume. A cada mulher, jovem, disponível, descomplicada, em cujo corpo me queria esquecer de ti, notava, sem disso ter clara consciência, a ausência do teu perfume. Bebi quanto quis, ninguém me recriminou, também ninguém me aconchegou a roupa na cama quando, exausto de tudo, me deitava. Um dia, acordei com o corpo frio, nenhuma das mulheres jovens, disponíveis e descomplicadas estava ao meu lado, vinham e partiam e não deixavam o rasto do teu perfume. Senti tanto frio, custou-me tanto a solidão, foi nesse momento que soube a única verdade: não sei viver sem ti.

Como to dizer? Como te pedir que voltes a amar-me? Como te explicar que esta solidão é maior do que qualquer prazer que colhi depois de deixar de te ter ao meu lado? Como te fazer crer que as mulheres jovens e disponíveis e descomplicadas com quem dormi não tinham o teu perfume e, por isso, nenhuma delas tomou lugar na minha alma? Como te dizer que a minha alma é um espaço pleno de ti? Como te convencer de que deixo de beber no segundo em que me disseres “volta”? Como, Laura, como, tocar com um dedo o teu coração e voltar a fazê-lo meu?

Aqui, Laura, agora, ante esta lareira esgotada, ante mim tão vácuo de tudo, ante a tua ausência, que dói tanto, escrevo-te para te materializar, para que possa iludir-me de que voltarei a sentir o odor natalício da tua casa e o da tua pele. Também para te pedir perdão, tanto tempo to neguei, mas agora, Laura, sei que to devo. Vou pousar a caneta, dobrar as folhas, não as enviarei pelo correio, não as queimarei na lareira, até porque há muito se extinguiu; o que farei, Laura, não sei.

Paula de Sousa Lima, escritora reaidente na ilha de São Miguel, Açores

Este conto saiu na edição de 25 de Dezembro de 2023 do jornal Açoriano Oriental. Aqui está no FILAMENTOS com a devida autorização da autora. 

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