
Os dias corriam velozes. Aproximava-se a Festa e a rapaziada abrigada da chuva no telheiro da escola, não falava de outra coisa.
“Que te vai trazer o Menino Jesus?”, perguntou o João ao António da canada.
“Eu sei lá!…”, respondeu o rapaz com ar desimportado. “Na nossa casa não se usa presentes. O meu pai ainda não recebeu a soldada da baleia. É sopa de couve todos os dias, com um torinho de linguiça perdida no caldo para dar gosto a carne. Todos provam e é o que comemos.”
António tinha cerca de doze anos. Repetente anos a fio, já devia ter feito o exame da quarta-classe, mas as labutas do campo atrás das vacas, tirando leite mal raiava o dia, lavrando e semeando, fizeram com que se atrasasse nos estudos.
Tinha ar de homem feito, com barba e calças de cotim compridas. Os colegas consideravam-no um veterano, mas ele pouco se importava. O seu sonho, adiado de ano para ano, era passar no exame e embarcar para longe.
“Se os outros saíram daqui e foram p’rá Amérca, por que não hei-de fazer o mesmo? De barco, de avião, um dia também hei-de lá chegar e fugir a esta miséria…”, pensava o miúdo, sozinho num canto, ao fundo do recreio, enquanto os mais pequenos davam largas às suas brincadeiras, numa algazarra estridente.
Ao longe, a Montanha do Pico escondia-se sob um negrume anunciando borrasca, como anteviram na véspera os baleeiros mais velhos, sentados em acesa discussão no muro da Casa dos Botes.

De quando em vez, caía uma chuva grossa que encharcava o pátio onde as crianças corriam e brincavam. Com roupas molhadas e pés descalços, negros do frio, não havia como aquecer tanta penúria gerada pela força da pobreza.
De repente, ressoa pela encosta da vila o estrondo de um forte trovão seguido do clarão de um relâmpago. As crianças gritam, abraçam-se para contrariar o medo, outras choram e fogem para dentro do edifício. Fez-se um tenebroso silêncio à espera de mais trovoada característica na época invernosa.
Do interior da sala, a professora, preocupada com a segurança das crianças, grita com voz forte: “Meninos, todos p’ra dentro. Sentados e calados!”
Encostadas umas às outras em carteiras de dois lugares, as crianças tremiam de medo e de frio, à espera que um novo trovão se abatesse sobre o velho edifício.
Aos poucos, porém, o temporal foi-se afastando, levando consigo os relâmpagos. O céu negro começou a clarear do mar para a terra, indiciando que o pior tinha passado.
António da canada, sozinho numa carteira ao fundo da sala, já vivera dias piores de mau tempo. Mesmo assim, pensava como estariam a Lavrada e a Malhada que ainda escuro tinha ordenhado na Terra de Baixo e que, mal saísse da escola, teria de ir recolhê-las na atafona para não passarem a noite à chuva e ao frio…
“E a professora diz que eu não estudo, nem faço nada …”, comentou para consigo.
Estava nestes pensamentos, quando a mestra D. Maria Francisca, em pé sobre o estrado, diz com voz timbrada e ameaçadora:
”Meninos!… da parte da tarde e até saírem, vão fazer uma redação sobre as prendas do Menino Jesus. Escrevem o que quiserem. Mas atenção! Sem erros ortográficos. Por cada erro, levam cinco reguadas e terão de escrever a palavra 20 vezes. Perceberam?” Ninguém respondeu.
António ouviu o recado e pensou de imediato: “Aos anos que ando a roçar o rabo por estas carteiras, a ouvir sempre as mesmas coisas, ao menos uma vez vou ter a oportunidade de escrever o que penso, mesmo com muitos erros. Mas quem os não tem? As reguadas que a professora me dará nestas mãos calejadas vão doer menos que o gelo da manhã, ao ordenhar as nossas vaquinhas. Vamos a isto.”
Tirou o caderno e o lápis da sacola de serapilheira e lançou-se ao trabalho, ciente de que o Menino Jesus lhe havia de perdoar a ousadia e os erros ortográficos.
“Meu Menino Jasus
Sabes melhor que ninguém que continuo aqui na escola só para tirar o diploma da 4ª classe. As canetas que me acompanham no dia-a-dia, a enxada e o alvião, é que ajudam a matar a fome à minha família, mas mesmo assim não chega.
Meu pai é baleeiro. Levanta-se cedo e vai para as terras. Mal rebenta o foguete, larga tudo e vem numa correria por essas canadas abaixo para a casa dos botes. Ele só é remador, a soldada é pequena e vem muito atrasada, porque os compradores do óleo da baleia – uns senhores do Cais – dizem que os alemães pagam mal. Não sei se é verdade, Tu sabes melhor que ninguém.
Que vai ser de nós, Menino Jasus?
Ainda pra mais agora que os rapazes vão para a guerra nas áfricas…
Quem me dera partir já. Meu pai várias vezes escreveu a meu tio Manel para que ele lhe fizesse carta de chamada, mas até agora…
Já pensei ir ao Faial pedir a um aventureiro que me levasse, como fizeram antigamente muitos rapazes, quando as baleeiras americanas andavam por aqui. Mas é muito arriscado. Mal sei escrever, quanto mais falar outra língua.

Menino Jasus
Este Natal o melhor presente que podia receber era ter a sorte de poder embarcar para a Amérca. Ia ter saudades das vacas, a nossa Lavrada é uma riqueza e a Malhada também, sem o leite e os queijinhos que a mãe faz e vende para fora, não sei como seria.
Tenho que terminar, não quero ser o último, nem dar nas vistas.
Obrigado por me teres escutado e não te esqueças da gente.
António Pereira da canada de cima.”
O rapaz olhou para o texto e ficou contente por ter tido coragem de dizer o que lhe ia na alma.
“Será que o Menino Jesus vai fazer caso do que escrevi?”, pensou António, atafulhando na mala livros, canetas e cadernos. “Há-de ser o que Deus quiser”.
O dia começava a escurecer e o gado chamava por ele para a muda da tarde. Num pulo chegou a casa e, enquanto devorava um pedaço de bolo e um naco de queijo curado, a mãe mostrou-lhe uma carta acabadinha de chegar no “Lima”.
“É da América, do Tio Manuel que vive em Betefet, mas parece ser inglês. Ainda esta noite vou a casa da sra Olga para traduzi-la. Oxalá sejam boas notícias, Deus Nosso Senhor nos proteja!”.
António, sem manifestar o seu contentamento, pensou consigo: “Afinal o Menino Jesus leu a minha carta. Deve ser o presente há tanto tempo esperado. Aguardemos.” E continuou subindo a canada. Corria uma aragem de norte e os dentes tiritavam de frio.
No horizonte, um paquete branco navegava com destino à América.
16 de dezembro de 2023
José Gabriel Ávila

