“Nada sei da geografia do paraíso
pois Deus ainda não apareceu na televisão
para marcar o dia do juízo final.”
J.H. B.M.
Acabo de (re)ler O Vento Escreve de Viagem (2022), que reúne a poesia toda de J. H. Borges Martins (1947-2014), e quero, antes de mais, saudar a feliz iniciativa editorial do Instituto Açoriano de Cultura na pessoa do seu presidente Carlos Bessa, em resgatar do esquecimento poetas que, de facto, não podem nem devem ser olvidados: Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar Laranjas (2019), com coordenação de Urbano Bettencourt; Mário Machado Fraião, As Ruas Demoradas (2020), com coordenação do autor destas linhas; Marcolino Candeias, Como Quem Vai ao Horizonte (2021), coordenado por Diniz Borges; J. H. Borges Martins, com o título da obra acima referida, coordenadapor Álamo Oliveira. Seguir-se-ão Madalena Férin e outros.

Há poetas que têm a vida que escrevem. Borges Martins foi um deles. Privei de perto com ele, recenseei todos os seus livros e sempre admirei a sua poesia vertiginosa, alucinada, neurasténica e profundamente metafórica. De resto, ele manteve-se sempre fiel ao influxo das correntes surrealistas e, nessa matéria, foi coerente e persistente. Por isso alinho pelo diapasão daqueles que consideram este autor terceirense como um dos últimos poetas surrealistas em Portugal.
Em vida, J. H. Borges Martins publicou oito livros de poesia. Agora reunidos num só volume, a que Álamo Oliveira juntou conjuntos de poemas dispersos e inéditos, a poética deste autor conhece uma outra consistência, uma outra unidade e uma nova respiração.
Vivendo no microcosmo da ilha e questionando as mitologias do quotidiano, Borges Martins teve sempre um entendimento muito preciso sobre o trabalho oficinal da sua poesia. E, preocupado com o destino do homem no palco do mundo, estava atento às grandes tragédias da Humanidade. Por isso, a sua poética é de uma gritante atualidade, pois que denuncia verdades ilusórias e renuncia às máscaras de um quotidiano alienante. Por exemplo a questão armamentista (Mitologia das Armas), o fanatismo religioso (Nas barbas de deus), a intolerância dos “tiranos”, os “açaimes” e as “mordaças” a ameaçar a liberdade, a persistência escandalosa da “fome” e das injustiças sociais (Os deuses morrem de costas), a ameaça do nuclear, os perigos que assolam o nosso viver e o nosso planeta…
O Vento Escreve de Viagem é atravessado por um sopro bíblico (com o Antigo Testamento a rondar por perto) e por um telurismo surreal, através dos quais Borges Martins age, reage, sente, pensa, viaja e sonha – sempre em diálogo com acontecimentos históricos, sociais e políticos verificados na ilha e no mundo. Daqui resulta todo um contencioso social, quase sempre tipificado no camponês (“pássaro de coração enforcado na/ dor geográfica da ilha”), em permanente desespero e conflito, porque integrado num processo de luta de classes.

A poesia de Borges Martins galopa vertiginosamente em busca da reorganização do real, subvertendo-o: “esta gente vive numa cidade imaginada/ por cães a urinarem contra as bermas e/ estátuas de verniz a fingirem gente” (Galope em 4 esporas). Aliás, sempre que o poeta (d) escreve a cidade, fá-lo sempre como se a renunciasse: “a cidade tem traqueias de cimento” e “dorme respirando medo pelas mãos”; (…) “a cidade vegeta ainda nas algibeiras/ dos vendedores ambulantes com malas/ carregadas de vento e de dias estagnados”, etc.
Só a lucidez louca dos poetas poderá decifrar o mistério da existência. Daí esta poética sui generis que combate a simplificação hipócrita da vida e quer decifrar o enigma dos dias. Para isso, Borges Martins recorre, com total eficácia, à metáfora surrealista, seu instrumento privilegiado: “as urtigas sentem nas veias a fome”; “esqueletos de sol resgatado”; “ouvi a música demente/ dos meus sapatos”; “ouço o mar – transístor natural no umbigo das moscas”; “ainda não é tempo de pendurar a alegria/ nos mastros”; “e o mar no lado de fora/ deu uma gargalhada/ e fugiu colérico montado/ nos meus sapatos”; “os soldados mordem/ o orgasmo da areia”, etc.
É, de facto, um tremendo e gratificante desafio ler toda a poesia de J. H. Borges Martins. Mas vale a pena o esforço. Até porque os poetas só morrem se deixarmos de os ler.
Victor Rui Dores
Poeta



